Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Sons ouvidos por diplomatas americanos em Cuba eram de grilos, dizem cientistas

Em 2016, vários funcionários da embaixada americana foram alvo de um tipo desconhecido de arma em Havana; gravação dos supostos sons, no entanto, nada mais é do que o barulho super alto feito por uma espécie específica de grilo, segundo análise

Redação, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2019 | 12h32

WASHINGTON - Em novembro de 2016, diplomatas americanos em Cuba reclamaram de sons persistentes e agudos seguidos por uma série de sintomas, incluindo dores de cabeça, náuseas e perda auditiva. 

Exames em quase uma dúzia deles revelou sinais de concussões e outros danos cerebrais, dando início a uma série de especulações sobre as causas, a principal delas sugerindo que seriam ataques com armas sônicas ou micro-ondas - na época, a gravação do zumbido sinistro foi amplamente divulgada na mídia.

Na semana passada, no entanto, dois cientistas apresentaram provas de que os sons da gravação não eram nem tão misteriosos nem tão elaborados quanto se imaginava. Tratava-se do barulho de grilos, segundo o estudo.

Isso não significa que os diplomatas não foram atacados, dizem os estudiosos, mas sim que a gravação apresentada à época não era de uma arma sônica, como foi sugerido.

Alexander Stubbs, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Fernando Montealegre-Z, da Universidade de Lincoln, na Inglaterra, estudaram a gravação dos sons feita pelos diplomatas e publicada pela agência Associated Press (AP).

"Há muito debate na comunidade médica sobre quais danos físicos, se houver algum, esses indivíduos teriam sofrido", disse Stubbs ao New York Times. "O que posso dizer de forma bastante definitiva é que a gravação divulgada pela AP é de um grilo, e achamos que sabemos até qual é a espécie."

Stubbs apresentou os resultados da análise no encontro anual da Sociedade de Biologia Integrativa e Comparativa. Ele e o doutor Montealegre-Z também publicaram uma versão inicial do estudo na internet. Os dois planejam enviar a avaliação para uma publicação científica nos próximos dias.

Quando Stubbs ouviu a gravação pela primeira vez ele se lembrou do som feito por insetos que ele havia analisado em trabalhos de campo no Caribe. Quando ele e o doutor Montealegre-Z fizeram o download do arquivo de som, descobriram que os padrões acústicos - como a taxa de pulsos e as frequências mais fortes - eram muito similares aos sons de certos tipos de insetos.

Ao cantarem durante rituais de namoro, insetos machos produzem padrões regulares de sons. As fêmeas são atraídas por certos machos com base em suas músicas, o que levou ao surgimento de diferentes músicas em diferentes espécies.

Se o som ouvido pelos diplomatas era feito por insetos, Stubbs e o doutor Montealegre-Z concluíram que era possível identificar a espécie específica.

Para encontrar uma correspondência, os pesquisadores analisaram gravações de insetos da América do Norte feitas em campo e disponíveis em um banco de dados online da Universidade da Flórida. E encontraram uma notável semelhança com uma espécie em particular: o grilo de cauda curta.

No entanto, o som dos grilos difere da gravação cubana em um aspecto importante. Os ruídos ouvidos pelos diplomatas eram erráticos, enquanto que os insetos emitem pulsos rápidos e agudos.

Stubbs suspeita que essa diferença pode ser resultado da própria forma como a gravação foi feita. Os diplomatas gravaram os sons dentro de casa, enquanto biólogos registraram os grilos na natureza.

Para testar essa hipótese, Stubbs reproduziu a gravação do grilo dentro de uma casa. Quando as ondas colidiram com as paredes, produziram um padrão similar aos pulsos irregulares ouvidos na gravação cubana.

"(O som dos grilos) combina, em detalhes sutis, com a gravação da AP em duração, taxa de repetição de pulso, espectro de potência, estabilidade da frequência de pulso e oscilações por pulso”, escreveram os cientistas em sua análise.

Especialistas em sons de grilos dizem que a análise foi bem feita. "Tudo parece fazer sentido", afirma Gerald Pollack da Universidade McGill, que estuda comunicação acústica entre insetos. "É uma hipótese com amplo apoio."

Quando os diplomatas americanos reclamaram dos sons estranhos em Cuba, descartaram a possibilidade de que fossem causados por insetos. Mas os grilos de cauda curta são excepcionais: há muito se sabe que eles fazem um barulho tremendo.

Sabe-se que os grilos de cauda curta vivem em Flórida Keys, na Jamaica e nas ilhas Grand Cayman. Também se sabe que uma espécie muito similar vive em Cuba.

Os estudiosos afirmam na conclusão do estudo que não é possível garantir que os diplomatas americanos não foram alvo de ataques, mas que os sons inicialmente ligados às reclamações não seriam a causa dos problemas.

O médico Douglas Smith, que conduziu a avaliação médica dos diplomatas, questionou o quanto uma única gravação poderia revelar sobre o ocorrido. Alguns pacientes, por exemplo, relataram não ter ouvido qualquer barulho incomum, disse Smith, enquanto outros ouviram vários sons.

"Eram sons como um motor em baixa frequência ou metal sendo raspado, como dirigir um carro com a janela aberta", disse o médico, diretor do Centro para Danos Cerebrais e Reparos da Universidade de Pensilvânia.

Ele não descarta a possibilidade de alguns diplomatas terem ouvido grilos, mas disse que isso não tem relação com os danos reais que eles sofreram.

"Esses pacientes passaram por muita coisa", acrescentou. "Eu gostaria de saber quais são os sons (que eles ouviram), mas para nós o mais importante é o que está acontecendo nos cérebros dos pacientes e o que podemos fazer sobre isso." / THE NEW YORK TIMES

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