Foto: (Sergey Ponomarev/The New York Times)
Foto: (Sergey Ponomarev/The New York Times)

Soviéticos negaram um vazamento de antraz em 1979, e comunidade científica embarcou em sua versão

O acidente e seu acobertamento ganham relevância renovada, enquanto cientistas investigam as origens da covid-19

Anton Troianovski/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 10h00

YEKATERINBURG, Rússia - Pacientes com pneumonias inexplicáveis começaram a aparecer nos hospitais; em poucos dias, dezenas tinham morrido. A polícia secreta apreendeu os registros dos médicos e ordenou que ficassem calados. Espiões americanos encontraram provas de um vazamento de laboratório, mas autoridades locais tinham uma explicação mais corriqueira: carne contaminada.

Levou mais de uma década para a verdade vir à tona.

Em abril e maio de 1979, pelo menos 66 pessoas morreram ao ser contaminadas por via aérea por bactérias de antraz que vazaram do laboratório de uma base militar da União Soviética. Mas os principais cientistas americanos expressaram confiança nas alegações dos soviéticos de que o patógeno havia sido transmitido aos humanos por animais. Somente após uma investigação plena e verdadeira, nos anos 1990, um daqueles cientistas confirmou uma das suspeitas iniciais: o acidente na localidade que hoje é a cidade de Yekaterinburg, na região dos Montes Urais, foi um vazamento de laboratório, um dos mais mortíferos já documentados.

Atualmente, os túmulos de algumas das vítimas parecem abandonados, seus nomes desgastados sobre as placas de metal, no fundo do cemitério nas imediações da cidade, onde foram enterradas em caixões cobertos por desinfetante de uso agrícola. Mas a história do acidente que ceifou essas vidas e sua operação de acobertamento ganha relevância renovada enquanto cientistas investigam as origens da covid-19.

O caso demonstra que um governo autoritário consegue ser bem-sucedido em moldar a narrativa de um surto de doença e como pode levar anos — e exigir, talvez, uma mudança de regime — para se chegar à verdade.

“Rumores absurdos se espalham durante todas as epidemia”, escreveu Joshua Lederberg, biólogo ganhador do Prêmio Nobel, em um comunicado, após uma viagem de investigação a Moscou, em 1986. “O atual relato dos soviéticos é provavelmente verdadeiro.”

Muitos cientistas acreditam que o vírus que causou a pandemia de covid-19 evoluiu em animais e posteriormente, em algum momento, saltou para os humanos. Mas cientistas também estão pedindo mais investigações a respeito da possibilidade de um acidente ter ocorrido no Instituto de Virologia de Wuhan.

Existe também uma preocupação generalizada de que o governo chinês — que, assim como o governo soviético, décadas atrás, descartou a possibilidade de vazamento de laboratório — não esteja fornecendo aos investigadores internacionais acesso pleno a locais, instalações e dados que poderiam dar pistas a respeito da origem da pandemia.

“Todos temos um interesse comum em descobrir se isso decorreu de um acidente de laboratório”, afirmou Matthew Meselson, biólogo de Harvard, em uma entrevista este mês em Cambridge, Massachusetts, referindo-se à pandemia de coronavírus. “Pode ter ocorrido um tipo de acidente que nossos atuais procedimentos de prevenção não evitam de maneira adequada.”

Meselson, especialista em armas biológicas, se mudou para um quarto vago na casa de um amigo da CIA, em 1980, para estudar informações secretas de inteligência que apontavam para a possibilidade de o surto soviético de antraz estar ligado a uma base militar nas imediações de Yekaterinburg. Seis anos depois, ele escreveu que a explicação dos soviéticos para a origem do surto era “plausível”. As evidências que os soviéticos forneceram eram consistentes, afirmou ele, com a teoria de que as pessoas haviam sido infectadas por antraz intestinal, que havia contaminado a ração óssea usada para alimentar animais.

Em 1992, após o colapso da União Soviética, o presidente russo Boris Yeltsin reconheceu que “nossas pesquisas militares foram a causa” do surto de antraz.

Meselson e sua mulher, a antropóloga médica Jeanne Guillemin, tinham ido a Yekaterinburg, acompanhados de outros dois especialistas americanos, realizar um estudo exaustivo. Eles documentaram a maneira como o vento nordeste que batia em 2 de abril de 1979 deve ter soprado, por um estreito corredor de 42,3 quilômetros, pouquíssimas miligramas de esporos de antraz que escaparam acidentalmente de uma fábrica.

“As pessoas são capazes de inventar histórias completamente malucas e torná-las plausíveis pela maneira que são construídas”, afirmou Meselson, explicando por que os soviéticos foram bem-sucedidos em afastar as suspeitas de vazamento de laboratório.

Em Sverdlovsk, como Yekaterinburg era chamada no período soviético, essas suspeitas emergiram assim que as pessoas começaram a adoecer misteriosamente, de acordo com entrevistas realizadas este mês com moradores da cidade que se recordam daqueles dias.

Raisa Smirnova, que trabalhava em uma fábrica de cerâmicas próxima ao local do acidente e tinha 32 anos na época, afirmou que tinha amigos no misterioso complexo militar que usavam seus privilégios especiais para ajudá-la a conseguir alimentos difíceis de encontrar, como laranja e carne enlatada. Ela também escutou que havia algum tipo de trabalho secreto com germes sendo realizado por lá, e rumores locais atribuíam surtos ocasionais de doenças ao laboratório.

“Por que suas mãos estão azuis?”, Smirnova lembra-se que um colega a perguntou certo dia de abril de 1979, quando ela chegou ao trabalho apresentando sintomas de baixo oxigênio no sangue.

Smirnova foi levada às pressas para o hospital com febre alta e, afirmou ela, ficou internada uma semana inconsciente. Em maio, cerca de 18 colegas tinham morrido. Antes de ter alta, agentes da KGB lhe deram um documento para assinar, proibindo-a de falar a respeito do ocorrido por 25 anos.

No serviço epidemiológico de Sverdlovsk, o pesquisador em saúde pública Viktor Romanenko participou do acobertamento. Ele disse que soube imediatamente que o surto de antraz que atingia a cidade não poderia ser da bactéria de origem intestinal, transmitida pelo alimento, como alegavam as autoridades graduadas de saúde. O padrão, os momentos das infecções e a distribuição dos casos evidenciavam que a transmissão foi aérea e ocorreu num mesmo instante.

“Todos sabíamos que essa versão não fazia o menor sentido”, afirmou Romanenko, que se tornou uma alta autoridade regional de saúde no período pós-soviético.

No Estado comunista, porém, ele não tinha nenhuma escolha a não ser confirmar a história, e ele e seus colegas passaram meses colhendo e analisando amostras de carne. Agentes da KGB apareceram em seu escritório e levaram embora os registros médicos. A União Soviética havia assinado um tratado de banimento a armas biológicas, e o interesse nacional estava em jogo.

“Havia um entendimento de que tínhamos de nos afastar o máximo possível da teoria do armamento biológico”, recordou-se Romanenko. “A missão era defender a honra do país.”

Esse nervosismo agitou também o jornal noturno Vecherni Sverdlovsk. Um correspondente do New York Times ligou para a redação do veículo de imprensa soviético após o surto ser revelado, lembrou-se um jornalista que trabalhava lá na época, Alexander Pashkov. O editor-chefe disse à equipe que parasse de atender ligações interurbanas, para evitar que alguém desse com a língua nos dentes caso o correspondente ligasse outra vez.

“Quem consegue guardar um segredo se sobressai”, afirmou Pashkov.

Com o desmoronamento da União Soviética, sua capacidade de guardar segredos também ruiu. Para um documentário filmado em 1992, Pashkov localizou na Ucrânia - já uma ex-república soviética - um ex-oficial de contrainteligência que tinha trabalhado em Sverdlovsk na época do acidente. Interceptações telefônicas no laboratório militar, afirmou o ex-oficial, revelaram que um técnico havia se esquecido de substituir um filtro de segurança.

Logo depois, Yeltsin - que também participou do acobertamento, por ser chefe do Partido Comunista naquela região em 1979 - admitiu que a culpa foi dos militares.

“Você tem de entender uma coisa simples”, afirmou Pashkov. “Isso só veio a público porque a URSS acabou.”

Meselson afirmou que determinar origens de epidemias é mais crítico quando a geopolítica está envolvida na questão. Se ele e seus colegas não tivessem confirmado a causa verdadeira do surto, esse tema ainda poderia complicar as relações entre Rússia e o Ocidente.

O mesmo vale para a investigação sobre a origem da covid-19, afirmou Meselson. Enquanto a origem da pandemia permanecer sob suspeita, afirmou ele, essa questão continuará a elevar as tensões com a China, de maneira mais intensa do que se a verdade fosse conhecida.

“Há uma enorme diferença entre a pessoa que ainda insiste em tentar provar algo contra uma oposição emocionada e a pessoa que pode olhar para trás dizer, ‘Pois é, eu tinha razão’”, afirmou Meselson. “Uma delas alimenta guerras. A outra é a história. Precisamos desvendar todos esses mistérios. Precisamos da história; não precisamos de toda essa emoção.”

Ao contrário da covid-19, o antraz não é transmitido facilmente entre humanos, motivo pelo qual o vazamento do laboratório de Sverdlovsk não causou uma epidemia mais grave. Mas nem mesmo o caso de Sverdlovsk foi totalmente desvendado. Continua incerto se a atividade secreta no laboratório era destinada ao desenvolvimento de armas biológicas - o que a União Soviética sabidamente realizou - ou à pesquisa de vacinas.

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