Sri Lanka anuncia que guerra civil está no fim

Avanço das tropas do governo pode acabar com um conflito de 35 anos

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

O Exército do Sri Lanka anunciou esta semana o início da ofensiva final contra o grupo Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE, na sigla em inglês), uma das organizações mais violentas do mundo, responsável pela invenção do homem-bomba.Desde 1976, o LTTE luta pela independência dos tâmeis, etnia que compõe 18% da população do Sri Lanka, uma ilha do Oceano Índico de apenas 25 mil km², um pouco maior que o Estado de Sergipe. Os tâmeis lutam pela autonomia do norte do país. Eles acusam os cingaleses, a maioria da população, de segregação.Encastelados no poder desde a independência do Sri Lanka, em 1948, os cingaleses monopolizam os mais importantes cargos públicos e os principais postos do Exército. Em 1965, o cingalês foi decretado idioma oficial, apesar de um quarto dos habitantes da ilha pertencerem a outros grupos étnicos.Em 1972, o budismo foi declarado a "principal religião", a despeito dos milhares de muçulmanos, hindus e cristãos que vivem no Sri Lanka. As medidas autoritárias provocaram o surgimento de vários grupos rebeldes nos anos 70, dos quais o mais importante foi o LTTE. Ao anunciar um "golpe final" na guerrilha, o governo cingalês pode estar colocando um ponto final em uma das mais antigas guerras civis do planeta, conflito que matou 70 mil pessoas nos últimos 35 anos.A ofensiva final teve início em janeiro. Desde então, as tropas cingalesas vêm apertando o cerco contra o LTTE, encurralando o grupo em uma área de 20 km² no noroeste da ilha. O que seria um cerco militar perfeito, porém, criou uma crise humana que os tâmeis comparam ao genocídio de Ruanda, em 1994.Hoje, 190 mil civis estão confinados na estreita faixa que separa as forças rebeldes das tropas do governo. A ONU teme que qualquer novo avanço militar sobre essa faixa se transforme em um "banho de sangue". Para o LTTE, esse corredor civil formado na região é a última barreira antes de sua extinção como grupo guerrilheiro."Na prática, o LTTE está mantendo essas pessoas como reféns", disse ao Estado Anna Heistat, coordenadora de emergências da ONG Human Right Watch. "Os guerrilheiros disparam contra qualquer um que tente sair dali e acabam usando essas pessoas como escudo humano. Ao mesmo tempo, os ataques do governo fazem o número de civis mortos subir diariamente. Desde janeiro, são 4 mil vítimas civis e mais de 10 mil feridos."A última oportunidade de rendição foi apresentada pelo governo aos guerrilheiros na quinta-feira. O LTTE não respondeu, mas o frasco de cianeto que cada membro da guerrilha leva preso ao pescoço é um sinal de que o grupo pretende ir até o fim. O veneno é engolido sempre que os homens do LTTE enfrentam risco de captura.O jogo no campo de batalha esteve empatado até a eleição do presidente Mahinda Rajapakse, em 2006, que foi vencida com a promessa de "aniquilar" o LTTE. A solução militar adotada pelo governo envolvia o bombardeio de vilas, sequestros, assassinatos arquitetados pela polícia, pelo Exército e por grupos paramilitares.Apesar dos abusos dos direitos humanos contra os tâmeis, os EUA e a União Europeia continuaram a fornecer armamento para o Exército do Sri Lanka. A justificativa é que o LTTE, em 2006, entrou na lista negra de Washington como organização terrorista. A história de perseguição, contudo, não terminará com a vitória do governo. Analistas temem que o número de mortos continue subindo depois de terminada a guerra. "Haverá consequências severas contra qualquer civil suspeito de ter simpatia pelo LTTE", disse Charu Hogg, especialista do centro Chatham House, de Londres. "Se você olha para o que aconteceu na zona que foi ?libertada? pelo governo, no leste do país, verá como cresceram as execuções", disse Yolanda Foster, da Anistia Internacional.No entanto, Rajiva Wijesinha, do Ministério para Manejo de Desastres e Direitos Humanos do Sri Lanka, afirma que "as alegações de abusos do governo cingalês contra civis tâmeis não passam de propagando do LTTE".

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