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Sri Lanka, um país em estado de choque após atentado

Após massacre, população do Sri Lanka vive entre a sede de vingança e a esperança de união

New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2019 | 05h00

Na sala, não cabia mais luto. Em meio ao calor, as pessoas paravam diante do caixão com o que restou da garota Sneha Savindi Fernando. No Domingo de Páscoa, ela aguardava na fila para a receber a comunhão, quando foi dilacerada pela explosão no atentado no Sri Lanka, que deixou ao menos 290 mortos e 500 feridos. Sneha tinha 11 anos. “Por que você me deixou?”, gritava a avó, diante do caixão. 

No dia seguinte aos ataques, o Sri Lanka era um país em estado de choque. Na Igreja de São Sebastião, em Negombo, a 32 quilômetros da capital, Colombo, a explosão foi tão poderosa que o teto desapareceu. Telhas de barro choveram sobre os fiéis, matando dezenas. Em uma pequena casa perto da igreja, Chandrani Fernando chorava em uma janela, ao lado do caixão do marido, Diluk, carpinteiro e pai de uma garotinha. “Éramos muito felizes”, disse Chandrani. “Agora, estou sozinha.”

Também sozinho ficou Kevin Goulding, de 17 anos, que viu seus pais saírem para a igreja no domingo de manhã. Seu pai usava camisa roxa e calça preta. Sua mãe, uma blusa laranja. Ambos foram mortos. 

Perto dali, vizinhos se acotovelavam em volta de um celular, assistindo a um vídeo da explosão, que mostrava os pais de Kevin estatelados no chão. Investigadores tentam agora coletar evidências na igreja, onde carne e cabelos queimados ainda estão presos nas paredes.

O Sri Lanka é resiliente. Um país pequeno e pobre, que sobreviveu ao tsunami de 2004 e a uma guerra civil de 26 anos. 

A sociedade do Sri Lanka é um mosaico de etnias e crenças que luta com divisões entre a maioria budista e as minorias hindus, muçulmanas e cristãs. A esperança é que o luto possa finalmente unir esses grupos. “Por muitos anos, vivemos em paz”, disse Sanjeewa Samarasinghe, um dos poucos comerciantes que abriu sua loja nesta segunda-feira, 22.

Mas já há sinais preocupantes. Na segunda-feira, 22, um bando de jovens cristãos percorreu Negombo com varas compridas. Eles disseram que estavam procurando por muçulmanos. “Estou preocupado”, disse Sithy Suwadha Kudhoos, um dos poucos muçulmanos de Negombo. “Todos aqui estão se sentindo mal.”

Na casa de Sneha, ninguém mencionou vingança. A raiva ainda está longe da tristeza. As pessoas ficaram quietas diante do caixão. Uma foto da menina foi colocada ao lado da porta. Um leve cheiro de jasmim pairava no ar. 

O pesado silêncio era ocasionalmente interrompido pelos soluços da avó, Lalitha Hettiarachchi, que nunca deixava o caixão. Ela estava inconsolável e suas palavras pareciam capturar o que os outros pensavam. “Todo mundo veio para ver você, minha filha”, dizia a avó, esfregando o caixão. “Nós vamos esperar por você. Por favor, levante-se e fale.” / NYT

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