Laetitia Vancon/The New York Times
Laetitia Vancon/The New York Times

Legalização da maconha na Alemanha impulsiona negócios de startups

Dois dos três partidos da nova coalizão de governo apoiam a legalização, uma mudança potencialmente radical no país conservador

The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 15h00

FRANKFURT - O primeiro sinal de que algo está diferente na centenária vinícola em uma pacata aldeia alemã cercada por vinhas é a porta de acesso à propriedade. É nova em folha e reforçada com uma grade de aço. Por trás dela, uma startup construiu uma instalação de teste e processamento multimilionária e está se preparando para lucrar com a próxima grande onda da Alemanha: a possível legalização da maconha.

“A Alemanha é tradicionalmente conservadora e sempre foi politicamente muito cautelosa”, disse Finn Hansel, fundador do Sanity Group, a startup que construiu a instalação de alta tecnologia, onde uma dúzia de técnicos bem pagos em jalecos brancos usam cromatografia para testar a coloração de plantas de cannabis importadas. A empresa pediu que a localização exata da casa da fazenda permanecesse em segredo por motivos de segurança.

"A ideia de que a maconha possa se tornar legal ainda é de alguma forma inacreditável para mim”, disse Hansel.

O novo governo da Alemanha anunciou que legalizaria a maconha recreativa para adultos em seu acordo de coalizão apresentado em outubro. Embora ainda não exista nenhum projeto de lei ou cronograma oficial para uma legislação, os especialistas acreditam que um será aprovado nos próximos dois anos.

A maconha medicinal é legal na Alemanha, e pequenas quantidades da droga para uso pessoal foram descriminalizadas anos atrás, mas empresas como a Sanity estão lutando para se certificar de que estão prontas para fornecer um mercado recreativo.

“A legalização da cannabis é uma mudança de paradigma”, disse Kirsten Kappert-Gonther, médica e membro do partido Verde eleita para o Parlamento, por e-mail. “Qualquer pessoa que preferir consumir um biscoito de haxixe em vez de uma cerveja após o trabalho no futuro deve poder tomar essa decisão e permanecer com os fundamentos legais.”

A maconha recreativa é legal em vários Estados dos Estados Unidos e em alguns países, incluindo Canadá e Malta.

Enquanto a chegada da maconha legal está sendo antecipada por empresas em toda a Alemanha, Jakob Manthey, um cientista do Centro de Pesquisa Interdisciplinar de Dependência da Universidade de Hamburgo, alerta para decisões precipitadas.

“Um enorme mercado está sendo criado aqui e isso também pode ser um motivo - ou um fator importante - que acabará por levar as vozes dos cientistas a serem consideradas com menos cuidado do que as vozes dos interesses comerciais”, disse ele em uma entrevista recente.

Embora aprove a legalização da maconha, Manthey disse que o mercado legal da Alemanha - na maior economia da Europa - terá um efeito de sinalização sobre o restante da União Europeia, onde várias nações estão lentamente chegando à legalização (a minúscula Malta sendo a primeira delas). Os legisladores precisam estar cientes dessa responsabilidade maior, disse ele.

Hansel foi cofundador de sua empresa de cannabis em 2018 depois de iniciar com sucesso vários negócios convencionais. Ele disse que viu uma grande oportunidade de negócios na cannabis legal.

No momento, o trabalho na casa de fazenda convertida está focado nos setores médico e de bem-estar, mas deve ser ampliado assim que o mercado de recreação estiver ativo. O Sanity Group afirma ter recebido mais de € 65 milhões em financiamento, até o momento, de investidores nacionais e internacionais, incluindo a Casa Verde, fundo de investimento de Snoop Dogg; do músico will.i.am; da atriz Alyssa Milano; de uma estrela do futebol alemão; bem como fundos de investimento mais convencionais.

Ninguém sabe exatamente quanto pode ser feito depois que a maconha se tornar totalmente legalizada. Mas um estudo recente estimou que a cannabis legalizada pode gerar quase € 5 bilhões anuais em receitas fiscais e economia no policiamento. O estudo, liderado por Justus Haucap, economista do Instituto de Economia da Concorrência de Dusseldorf, também estima que a legalização pode criar 27 mil novos empregos. De acordo com a pesquisa de Haucap, o mercado legal pode gerar uma demanda de 400 toneladas por ano.

O plano é vender cannabis em locais de distribuição licenciados, onde a qualidade possa ser garantida, impostos sobre vendas possam ser coletados e ela possa ser mantida fora do alcance de menores. O caminho mais provável, muitos dizem, é que as farmácias - que agora vendem maconha medicinal - continuem a vender a droga.

Isso resolveria os problemas de ter de criar e regular um novo sistema de distribuição comercial, como tem sido o caso em muitos Estados dos EUA, ou de não ter distribuidores licenciados pelo governo suficientes, como ficou evidente durante a implantação do Canadá.

Para a Alemanha, conhecida por sua burocracia pesada, a legalização em dois anos seria uma mudança relativamente rápida. Mas as startups alemãs dizem que estarão prontas e esperando.

Stefan Langer, que usa maconha medicinal para tratar seu TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), fundou a Bavaria Weed. Ele comprou um dos últimos bunkers da Guerra Fria a ser construído na Baviera e instalou uma linha de produção que é capaz de embalar 20 mil porções individuais por dia. Manter seus negócios honestos, o que inclui o registro tanto de uma autoridade médica quanto de uma autoridade de substâncias controladas, cada uma com suas próprias regras, é mais do que um trabalho de tempo integral, disse Langer.

Nem a Sanity nem a Bavaria Weed cultivam suas próprias plantas - embora existam algumas empresas alemãs que fazem isso - elas importam o produto de lugares distantes como Portugal ou Canadá, todos os quais devem ser licenciados e documentados para as autoridades alemãs.

Em um laboratório da antiga vinícola dedicado à extração e produção, que é mantido sob pressão de ar positiva e acessível apenas por meio de uma sala limpa, uma equipe elabora métodos para extrair e processar melhor o THC e o CBD, a substância que supostamente ajuda a aliviar o estresse. Em sua configuração atual, a estrutura pode processar 21 toneladas de cannabis por ano, de acordo com a empresa.

O Sanity Group também construiu um depósito de substâncias controladas de 243 metros quadrados no terreno do vinicultor. Para cumprir as leis de preservação históricas, a estrutura tinha de ser revestida de madeira, mas suas câmeras de segurança e sistema de alarme se conectam diretamente à delegacia de polícia local, suas paredes são blindadas e têm quase 30 centímetros de espessura, e sua porta de metal pesada deixaria um banco envergonhado.

Os alemães parecem estar começando a aceitar a ideia de legalizar a maconha. Uma pesquisa recente da Infratest Dimap pela primeira vez encontrou mais entrevistados a favor da legalização (49%) do que contra (46%). Em 2014, apenas 30% disseram ser a favor da legalização.

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