Status quo está em perigo nos Estados árabes

A queda de um ditador na Tunísia provoca reflexos em uma região repleta de governos autoritários no norte da África que não funcionam

Anthony Shadid, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

As últimas semanas têm sido péssimas para a velha ordem árabe. Começou com o Egito, outrora o dinâmico e incontestável líder do mundo árabe. Um atentado no primeiro dia do ano numa igreja cristã deixou claro o que os egípcios já sabem: anos de estagnação não resolveram os problemas e criaram outros como, a divisão entre muçulmanos e cristãos.

O Líbano voltou a enfrentar uma situação familiar. Outra crise sobre quem governaria o país paralisou um governo já frágil. Os libaneses estavam nervosos, mas não agitados; passaram mais meses sem um governo atuante do que com um, e sobreviveram.

O Sudão está à beira de uma divisão, pois o sul votou em peso pela separação do norte, controlado pelos árabes, contra quem lutaram duas guerras civis.

O Iraque não é bem uma velha ordem, mas as legiões que seguem o clérigo xiita radical Muqtada al-Sadr - marginalizadas, irritadas e determinadas a herdar o país - tomaram conta das ruas de uma cidade sagrada para receber de volta seu líder, que já deixou claro que será uma força que os aliados americanos no Iraque terão de reconhecer.

O Tunísia foi tomada por protestos contra o desemprego, a corrupção e muitos anos vivendo sob um dos mais duros regimes do mundo árabe, que forçaram seu ditador a fugir.

Os Estados árabes parecem exaustos e ideologicamente falidos, sobrevivendo apenas para se perpetuar. Nunca a divisão entre governantes e governados pareceu tão profunda, e talvez jamais tenha sido tão perigosa. "O que estamos presenciando é o colapso do Estado árabe", escreveu Alfadel Chalak em sua coluna no jornal de esquerda de Beirute, As Safir. "Por todos os lados do mundo árabe, o que vemos são guerras entre civis, etnias, seitas, autoridades e pobres", escreveu. "Guerras num mundo árabe que não tem uma elite ou líderes que tracem estratégias e táticas que levem à salvação. O que veremos nos próximos anos, e talvez décadas, será devastação, destruição e assassinatos."

"As transições estão pendentes" disse Robert Malley, especialista em Oriente Médio e África do International Crises Group. Ele listou as razões para o início de um fim: "a perda de energia, de ímpeto entre muitos países árabes moderados, a perda de qualquer objetivo, além da sobrevivência dos próprios regimes".

O dinamismo no mundo árabe simplesmente desapareceu. Pode-se dizer que Irã e Turquia, Estados não árabes que têm objetivos divergentes no Oriente Médio, hoje têm um papel político maior no mundo árabe do que qualquer outro Estado árabe.

Os EUA também têm responsabilidade, ajudando a distorcer a mais moderna versão desses Estados como entidades políticas, não conseguindo pôr fim ao conflito entre árabes e israelenses, rejeitando um engajamento com os movimentos islâmicos e ajudando na consolidação de governos, como os do Egito e da Arábia Saudita, incapazes de se reformularem. A secretária de Estado Hillary Clinton censurou esses aliados pela falta de reformas, mas não mencionou que alguns dos regimes mais ditatoriais são os mais próximos dos EUA.

Os erros do Ocidente são reais, mas o que falta é uma autorreflexão por parte das próprias falhas dos Estados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE NO IRAQUE

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