Lynsey Addario/The New York Times
Lynsey Addario/The New York Times

Berço da segregação racial nos EUA elege seu primeiro prefeito negro

Campanha e sucesso de Steve Reed foram validados pela comunidade negra, que compõe 60% da população de Montgomery

Redação, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2019 | 09h00

MONTGOMERY, EUA - Em um colégio eleitoral perto do cruzamento das avenidas que homenageiam tanto a ativista dos direitos civis Rosa Parks quanto o líder confederado Jefferson Davis, Laura Minor passou a tarde quente numa cadeira dobrável com um adesivo de David Woods para prefeito na camisa.

Ela havia sido contratada para a campanha do candidato, mas não tinha vergonha de dizer que Woods havia comprado seu tempo, mas não havia ganhado seu voto.

"Na verdade eu estou apoiando Steven Reed”, disse com entusiasmo a mulher negra. Ela vive em Montgomery,  capital do Alabama e palco dos principais protestos pelos direitos dos negros nos EUA nos anos 60. Na terça-feira,  7, Reed, um jovem juiz e filho de uma importante família política, tornou-se  o primeiro prefeito negro da cidade. 

Sua campanha e seu sucesso foram validados pela comunidade negra, que compõe 60% da população de Montgomery. A cidade foi moldada por dois principais legados: como o de uma capital de uma nação com passado racial corrompido e como o berço do movimento dos direitos civis.

Reed entrou na disputa sem estar filiado a nenhum partido. Ele derrotou  David Woods, homem branco e dono de uma estação de televisão, após concorrer com outros 12 candidatos no primeiro turno, com  67% dos votos, segundo resultados não oficiais divulgados pela cidade.

Agora, Montgomery se junta a Birmingham e Selma, cidades com grande histórico de luta pelos direitos civis no Alabama, ao eleger jovens negros como prefeitos.

Muitas pessoas que cresceram sob a sombra desta história não puderam fazer nada menos que esperar que eles fossem presenciar o início de um emocionante capítulo. "Esta é a nossa vez", disse Yolanda Sayles Robinson, 59 anos, que nasceu na cidade e se descreve como um produto da década de 1960. "Estamos esperando por isso há muito tempo."

Discurso de união em uma cidade que tenta renascer

"Você acreditava que não tínhamos que ser definidos pelo nosso passado", disse Reed à multidão que se aglomerou em um salão na noite de sua eleição gritando seu nome e cantando "One Montgomery" enquanto ele subia ao palco. "Não será sobre o primeiro. Nem será sobre o melhor. Será sobre o impacto que causamos na vida de outras pessoas. "

Em alguns cantos, Montgomery, situada no rio Alabama com uma população de cerca de 200 mil habitantes, passou por uma revitalização.

A história que há muito assombra a cidade evoluiu para uma espécie de trunfo, com um memorial nacional às vítimas de linchamento e um museu de escravidão e encarceramento em massa atraem grandes multidões.

Novos hotéis e outros empreendimentos surgiram no centro da cidade, e as ruas ao redor do Capitólio do Estado estão repletas de restaurantes frequentados por jovens. A Hyundai, fabricante de automóveis, investiu milhões de dólares em uma fábrica que tem sido importante criadora de empregos.

Pobreza resiste na capital do Alabama

Ainda assim, os investimentos na cidade não foram divididos igualmente. Alguns bolsões da cidade estão abandonados, com ruas pobres e perigosas. Também existem preocupações acerca da perda de pessoas talentosas para cidades maiores, atraídas por melhores opções de carreira e cultura.

Reed foi o primeiro juiz de testamento negro no condado de Montgomery e graduado pela Morehouse, faculdade historicamente negra em Atlanta e Vanderbilt, onde ele fez um MBA. Ele também tem fortes laços com a comunidade.

Seu pai, Joe Reed foi, durante muito tempo, líder da bancada negra do Partido Democrata do Estado e sua família é um elemento importante na cidade. Alguns eleitores relataram memórias de Reed na adolescência ou de vê-lo como um garoto na igreja, e compartilharam um certo orgulho em acompanhar seu sucesso. 

O voto, para alguns, carregava um significado profundo, chegando a fazer comparações com 2008, quando o presidente Barack Obama foi eleito. "Aqui estamos", disse Derrick Marshall, 63 anos, um auxiliar de professor que viveu em Montgomery praticamente toda a sua vida, "parado à porta de outro evento significativo".

Passado confederado e palco de segregação racial

Montgomery tornou-se uma cidade em dezembro de 1819 e serviu como a primeira capital dos Confederados durante a Guerra Civil Americana. Nos anos 60, tornou-se famosa quando o reverendo Martin Luther King Jr. liderou protestos por direitos iguais para negros e brancos, que, à época, viviam segregados no Alabama. Ali, Rosa Parks desafiou a polícia estadual ao sentar-se num ônibus destinados para brancos. 

Reed se junta a Randall Woodfin, o prefeito de 38 anos de Birmingham, maior cidade do Alabama, e Darrio Melton, 40, que é prefeito de Selma desde 2016. Talladega também elegeu seu primeiro prefeito negro, Timothy Ragland, 29, na terça-feira.

Na noite da eleição, enquanto palestrantes se revezavam com uma playlist de músicas que incluíam Beyoncé, Usher and the Isley Brothers — a multidão da festa de Reed assistiam às notícias de uma televisão local projetada na parede, torcendo enquanto a contagem de votos piscava na direção deles. 

A vitória de Reed pode ser uma benção, alguns disseram numa resposta às suas orações.Foi algo que eles buscavam por gerações, Sylvia Norman estava entre os que que viam o atraso como uma espécie de presente. “Anos sem um prefeito negro fortaleceram a determinação da comunidade em fazer isso acontecer”. 

“Não demorou muito”, disse a eleitora Sylvia Norman. “Deus faz as coisas no seu tempo”.  Ela aplaudiu, dançou e pulou, pois parecia que a hora chegaria em breve. / NYT

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