Strauss-Kahn põe política francesa em suspense

Em silêncio em Nova York, ex-diretor do FMI pode deixar a vida política ou se lançar à presidência contra Nicolas Sarkozy caso seja inocentado

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

A espetacular reviravolta nas denúncias de violência sexual contra o ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn envolveram em suspense a vida política da França. A nove meses das eleições presidenciais, seis nomes disputam as prévias do Partido Socialista (PS) para definir o adversário de Nicolas Sarkozy. Mas ninguém descarta um eventual - e estrondoso - retorno do ex-favorito das pesquisas.

O único cenário claro é o de condenação: sua vida política estará destruída. Todas as demais hipóteses lançam dúvidas não apenas sobre Paris, mas também Nova York. Políticos próximos a Strauss-Kahn asseguram que nem mesmo o diretor sabe qual será seu destino. Isso porque, ainda que as denúncias de Nafissatou Diallo, camareira do Hotel Sofitel que diz ter sido violentada, mostrem-se frágeis, as acusações persistam e a audiência do dia 1o pode levar a um julgamento sem data determinada. Nesse caso, Strauss-Kahn perderia não apenas o prazo para a inscrição de sua pré-candidatura no PS, mas também a votação interna, considerada irreversível.

O cenário, entretanto, pode mudar de forma radical caso sua inocência seja confirmada em agosto pelos promotores americanos. Essa hipótese abriria a possibilidade de um pedido de inscrição excepcional nas prévias do PS, cujo prazo se encerrou na quarta-feira. Na Rue Solférino, sede do partido, ninguém questiona a legitimidade de um eventual pedido. Mas, ainda que Strauss-Kahn seja inocentado, as incertezas sobre como os franceses vão reagir são imensas. A primeira pesquisa sobre o tema, realizada pelo instituto Harris Interactive a pedido do jornal Le Parisien, há dez dias, mostrou uma opinião pública profundamente dividida: 49% a favor de seu retorno à vida pública e 45% contrários.

Os números não mostram tudo, segundo cientistas políticos ouvidos pelo Estado. Será preciso analisar em quais circunstâncias se dará seu retorno a Paris: como um herói, vítima de um complô e incriminado de forma injusta, ou como mais um político rico e sórdido, cuja conduta privada não recomenda uma vida pública de alto nível.

Opinião pública. Ainda resta saber o quanto a má impressão é definitiva. Mas analistas políticos não hesitam em afirmar que o caso abalou sua liderança. Stéphane Rozès, cientista político do Instituto CAP, apela a um neologismo para definir a situação. "A imagem dele foi afetada", sentencia. "Não sua competência, mas sua "presidencialidade"." Frédéric Dabi, do concorrente Ifop, pondera que o caso expôs ao mundo a intimidade de Strauss-Kahn. "Isso pode chocar todo o eleitorado."

Nesse caso, uma escolha possível seria usar sua competência e sua experiência internacional para pesar no PS. O eventual apoio a um dos candidatos é uma possibilidade, que poderia ou não ser reconhecida no futuro com o cargo de primeiro-ministro. "Se Strauss-Kahn vier a apoiar Martine Aubry, a quem ele estava ligado por um pacto, será uma formidável vantagem para ele", afirma Dabi.

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