Ali Jasim/AP-27/6/2006
Ali Jasim/AP-27/6/2006

Submundo das prisões iraquianas vem à tona

A imagem pública dos detidos no Iraque foi definida pelas infames fotos de abusos americanos em Abu Ghraib, como as do prisioneiro encapuzado e do cão rosnando. Apesar de os documentos revelados pelo WikiLeaks oferecerem vislumbres do que ocorria nas detenções americanas, eles contêm detalhes indeléveis de abusos praticados por forças de segurança do Iraque.

Sabrina Tavernise e Andrew W. Lehren, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Os seis anos de relatórios incluem referências às mortes de pelo menos seis prisioneiros sob custódia iraquiana, a maioria em anos recentes. Espancamentos, queimaduras e chicoteamentos surgiram em centenas de relatórios, dando a impressão de que esse tipo de tratamento não era excepcional. Em um caso, americanos suspeitaram que oficiais do Exército iraquiano haviam cortado os dedos de um detido e o queimado com ácido. Há dois relatos de execuções de detidos que estavam amarrados.

E embora alguns casos de abusos tenham sido investigados pelos americanos, a maioria parece ter sido ignorada: soldados informaram seus oficiais, que pediram aos iraquianos que investigassem.

Um porta-voz do Pentágono disse que a política americana sobre abuso de detidos "é, e sempre foi, consistente com a lei e a prática internacional". As regras vigentes, disse ele, requerem que as forças reportem abusos imediatamente; se eles foram cometidos por iraquianos, então as autoridades iraquianas são responsáveis por investigar. Mesmo quando os americanos descobriram abusos e os relataram, os iraquianos com frequência não agiram. Um relatório disse que um chefe de polícia se recusou a fazer acusações, "pois o abuso não deixara marcas".

Trata-se de um retrato assustador de violência, mas é particularmente perturbador porque as forças policias e militares do Iraque são fundamentais para o plano do presidente Barack Obama de retirar as forças americanas do Iraque. As tropas iraquianas já são a espinha dorsal da segurança do país, agora que as forças de combate americanas oficialmente se foram. Os iraquianos agora também administram as prisões no país.

O arquivo contém relatos extensos, com frequência incoerentes, de abusos de prisioneiros iraquianos por americanos, mas poucos são substanciados. Os mais graves referiam-se às detenções, que eram frequentemente violentas. Nesses casos, investigações eram abertas. Num episódio que lembra Abu Ghraib, em que guardas se fotografaram com iraquianos a quem haviam obrigado a posar em posições humilhantes, um soldado foi censurado por escrever uma calúnia depreciativa com um pincel atômico na testa de um detido em prantos.

Os EUA tomaram medidas para melhorar seu sistema de detenção após a divulgação do escândalo na prisão de Abu Ghraib em 2004, endurecendo as regras que regem o tratamento de prisioneiros e separando os radicais da Al-Qaeda de outros presos. Mas os documentos mostram que os americanos às vezes usaram a ameaça de abusos por autoridades iraquianas para obter informações de prisioneiros. Segundo um relatório, um americano ameaçou enviar um detido para a Brigada Lobo, uma unidade policial iraquiana particularmente violenta, se ele não fornecesse informações.

Alguns dos piores exemplos de abuso iraquiano surgiram num período posterior da guerra. Em agosto de 2009, um comando policial iraquiano informou que um detido cometeu suicídio quando estava sob sua custódia, mas uma autópsia realizada na presença de um americano "revelou contusões e queimaduras no corpo do detido, além de lesões visíveis na cabeça, braços, torso, pernas e pescoço".

Em dezembro, 12 soldados iraquianos, entre eles um oficial do serviço de informações, foram filmados em Tal Afar matando a tiros um prisioneiro de mãos atadas. O documento diz que não está claro se a apuração foi conduzida até o fim.

Os anos de abusos sob o regime de Saddam Hussein produziram uma sociedade excepcionalmente violenta. Os iraquianos usaram cabos, barras de metal, pedaços de pau e choques elétricos para ferir os prisioneiros. Um relatório detalhando o caso de um prisioneiro específico citava "hematomas de formato semelhante ao de uma bota em toda a extensão de suas costas".

Em outro documento, um detento é descrito com hematomas provocados por pancadas de tábua. Outro detento tinha a visão borrada, sangramento nos ouvidos e no nariz, ferimentos nas costas, nos braços e nas pernas e hemorragia nos olhos. Os americanos relataram as ocorrências ao comandante local do Exército iraquiano, mas não abriram inquérito porque não haveria americanos envolvidos nos casos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E CELSO M. PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.