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Subúrbio de Paris mantém marcas 10 anos após tumultos

Em Clichy-Sous-Bois, estopim das revoltas que se espalharam por todo o país, jovens ainda lutam contra discriminação e por emprego

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / CLICHY-SOUS-BOIS, FRANÇA, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2015 | 22h00

CLICHY-SOUS-BOIS, FRANÇA - Em frente à delegacia de polícia no Cruzamento da Liberdade, em Clichy-Sous-Bois, subúrbio pobre a 30 quilômetros de Paris, estacas e grades de metal isolam e fortificam o prédio contra qualquer “ameaça”. A precaução foi tomada em razão do histórico de tensão entre as forças de segurança e os jovens da área, que há 10 anos obrigaram o governo a decretar estado de urgência em todo o país.

O estopim da crise foram as mortes de Zyed Benna, de 17 anos, e Bouna Traoré, de 15, eletrocutados em uma central de energia quando tentavam se esconder da polícia, que os perseguia sem que tivessem cometido crime. Um sobrevivente, Muhittin Altun, de 17 anos, ferido, fugiu e denunciou o fato. Na mesma noite de 27 de outubro, multidões de jovens foram às ruas de Clichy-Sous-Bois para denunciar a violência da polícia e para se revoltar contra o destino de desemprego e marginalização.

Para entender o grau de indignação, no entanto, é preciso voltar 48 horas antes dos protestos, quando o então ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que viria a se tornar presidente, chamou jovens de outra periferia pobre, em Argenteuil, de “gentalha” e prometeu “limpar” os subúrbios com a mesma máquina conhecida por lavar fezes de animais das calçadas francesas.

O clima de hostilidade entre a classe política, a polícia e os jovens franceses explodiu então em Clichy para em seguida tomar os subúrbios em todo o país. Durante três semanas, as periferias de Paris e das principais cidades francesas foram sitiadas por jovens que protestavam violentamente. Mais de 10 mil veículos foram queimados, assim como escolas, centros comunitários e prédios públicos. 

Durante duas semanas, o Estado esteve em Clichy-Sous-Bois para encontrar parentes de vítimas, jovens que participaram dos atos e outros que os assistiram, além de acadêmicos especializados no tema. 

Entre os primeiros, está Siyakha Traoré, de 24 anos, irmão mais velho de Bouna. Transformado em porta-voz da indignação, Traoré foi aos tribunais e perdeu a causa em abril, quando os dois policiais envolvidos foram inocentados pela Justiça. Mas nem todas as críticas à França e à mídia – que na sua visão criminalizou seu irmão e sua cidade nos primeiros dias de rebelião – fazem com que esqueça do que considera mais importante: trabalhar para limpar a honra das vítimas. 

“Bouna e Zyed não eram delinquentes”, ressalta. “Eram adolescentes educados, que tinham valores e princípios, eram respeitosos e tinham limites”. 

Adel Benna, de 29 anos, irmão de Zyed, lamenta pelos distúrbios que marcaram a cidade para sempre e causaram prejuízos aos moradores. “Mas, ao mesmo tempo, se não tivesse havido a revolta, não teria havido nem sequer um processo na Justiça.”

Marcas. Nas “cités”, grandes prédios residenciais transformadas em espécies de favelas de concreto, as revoltas de 2005 ainda pautam a vida local. Ter na carteira de identidade o endereço da cidade significa discriminação certa. 

“Quando vamos a algum lugar deixar um CV em busca de emprego, as pessoas olham atravessado porque vivemos em Clichy”, diz o rapper Paco Rabanne, que foi às ruas em 2005. 

“Não descemos para quebrar tudo ou queimar automóveis. Descemos para nos manifestar. Não podem vir aqui, matar e querer que fiquemos de braços cruzados”, argumenta. “Nós descemos para agir, para fazê-los compreender que nós também podemos nos indignar.”

Dez anos depois, mesmo quem não participou dos protestos violentos sofre as consequências. Para os mais jovens, as rebeliões são, além de um fardo social e profissional, um trauma inesquecível. 

Zé Pequeno, de 17 anos, rapper que usa o nome do personagem de Cidade de Deus, demora para falar sobre o tema, mas, quando o faz, demonstra não esquecer as cenas de violência. “Me lembro das noites de estresse, noites de loucura. Eu abria a janela e sentia o ambiente lá fora. As coisas queimavam, explodiam e a gente não sabia onde. Olhava para baixo e havia grupos de policiais que nos mandavam tirar as cabeças da janela”, conta. “Isso assustava as pessoas e me assustou muito.”

Para Yassa Ba, de 17 anos, as revoltas não foram uma aventura, nem uma rebelião legítima, mas um momento de sofrimento. “As revoltas me lembram o toque de recolher, os policiais, a gasolina, as pessoas, a dor”, diz ele. “Quando falo das revoltas, lembro de caras do meu bairro contra a polícia e contra todo mundo que não era daqui.” 

Nascido em Camarões, Ba vive na França desde os 3 anos, mas expressa um dos sentimentos mais recorrentes entre jovens de periferia: o de rejeição. Para ele, crescer e viver em seu “quartier” marginalizado significa estar desconectado da nação rica e da Paris da torre Eiffel. “Não”, diz ele, “eu não me reconheço na França”.

Para lembrar

Cerca de 2,9 mil jovens foram presos pela ação das tropas de choque e 56 policiais ficaram feridos durante os distúrbios de Clichy-Sous-Bois há 10 anos. O número total de manifestantes é desconhecido. Os “émeutes”, como são chamados os incidentes de 2005, precederam revoltas em outros pontos da Europa, como nas periferias inglesas, em 2011, e mesmo a Primavera Árabe, denunciando o abuso de autoridade corrente até nas democracias mais consolidadas do mundo.

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