EFE/EPA/FRANCK ROBICHON
EFE/EPA/FRANCK ROBICHON

Sucesso do Japão ao lidar com coronavírus pode estar mudando

País tem intrigado epidemiologistas ao evitar situações sombrias com a da Itália e de Nova York sem restrições draconianas à circulação, bloqueios economicamente devastadores ou mesmo testes generalizados

Motoko Rich e Hisako Ueno / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 17h21

TÓQUIO - O Japão tinha apenas alguns poucos casos confirmados de coronavírus quando uma enfermeira de 30 e poucos anos desceu de um ônibus em Osaka, a terceira maior cidade do país, para assistir ao show de uma banda de pop em clube local. 

Menos de duas semanas depois, ela testou positivo para o coronavírus e as autoridades rapidamente alertaram a todos que estiveram no mesmo clube. Como mais casos de infecção rapidamente surgiram em outros três locais de shows na cidade, autoridades testaram seus frequentadores e todos os seus contatos próximos, pedindo a todos que permanecessem em casa. No total, há 106 casos ligados aos clubes e 9 pessoas internadas. 

Mas menos de um mês depois de a enfermeira ser diagnosticada, o governo de Osaka declarou o fim do isolamento. 

Desde que os primeiros casos de coronavírus foram confirmados no Japão, em meados de janeiro, agentes de saúde têm alertado à população para se deslocar com rapidez para impedir que o vírus se propague e saia de controle. Ao mesmo tempo, o Japão tem intrigado epidemiologistas por ter evitado situações sombrias em lugares como Itália e Nova York sem aplicar restrições draconianas de circulação, bloqueios economicamente devastadores ou mesmo testes generalizados.

A situação, porém, pode mudar. Na quinta-feira, o ministro da Saúde do Japão, Katsunobu Kato, disse que havia informado ao primeiro-ministro Shinzo Abe que havia evidências de que o Japão estava agora em alto risco de uma infecção galopante.

Na noite de quarta-feira, apenas um dia após o Japão e o Comitê Olímpico Internacional concordarem em adiar os Jogos de Tóquio em um ano por causa da pandemia de coronavírus, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, alertou aos cidadãos de que a cidade de quase 14 milhões de pessoas estava em uma "fase crítica antes de uma possível explosão de infecção".

Os casos em Tóquio aumentaram esta semana, estabelecendo recordes por quatro dias seguidos - incluindo um anúncio de 47 casos na quinta-feira - quando os viajantes retornavam do exterior. Os testes limitados para o vírus levantaram temores de que muitos outros não sejam detectados.

Koike implorou ao povo de Tóquio para trabalhar em casa, evitar saídas desnecessárias e ficar dentro de casa no fim de semana. Na quinta-feira, os governadores de quatro prefeituras vizinhas também solicitaram que os residentes evitassem, no fim de semana, sair para outras atividades além de necessidades urgentes. "Se continuarmos sem fazer nada agora, a situação vai piorar. Peço a cooperação de todos", disse Koike.

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O público ainda não levou esses avisos a sério. Embora as escolas tenham sido fechadas por um mês e o governo tenha solicitado que grandes eventos esportivos e culturais sejam cancelados ou adiados, o restante da vida voltou ao normal. As pessoas andam de metrô lotado, reunindo-se em parques para ver as flores de cerejeira, fazer compras, beber e jantar, confortadas pelo número relativamente baixo de casos e mortes confirmados de coronavírus no Japão.

À medida que outras partes do mundo caem em uma espiral de infecções e mortes em hospitais, o Japão, um país de quase 127 milhões de habitantes, registrou apenas 1.300 casos e 45 mortes, com uma das menores taxas de mortalidade no mundo, apesar do envelhecimento da população.

Ao conseguir conter amplamente as infecções, o Japão apresentou um contraste intrigante com outros países da Ásia, onde a pandemia começou. Não colocou cidades em confinamento como a China. Não implantou a moderna tecnologia de vigilância como um número crescente de países, incluindo Cingapura. Também não adotou o tipo de teste por atacado que ajudou a Coreia do Sul a isolar e tratar as pessoas antes que elas pudessem espalhar a doença.

Enquanto a Coreia do Sul, com uma população menor que a metade do Japão, realizou testes em quase 365 mil pessoas, o Japão testou apenas cerca de 25 mil.

 

O Japão agora tem capacidade para realizar cerca de 7.500 testes por dia, ainda que a média diária fique entre 1.200 e 1.300. O diretor do departamento de gerenciamento de crises em saúde do Instituto Nacional de Saúde Pública, Tomoya Saito, disse que os testes limitados foram intencionais.

Aqueles que são testados são examinados pelos médicos, geralmente após apresentar febre e outros sintomas por dois a quatro dias. 

Hábitos culturais

Saito disse que parte da aparente resistência do Japão à infecção pode resultar de medidas comuns da cultura, como lavar as mãos com frequência e se curvar em vez de apertar as mãos. As pessoas também são muito mais propensas a usar máscaras em trens e em espaços públicos. "É uma espécie de distanciamento social", disse Saito.

Em Osaka, um relatório preparado para o Ministério da Saúde deste mês projetou que, no início de abril, a cidade pode ter cerca de 3,4 mil casos, 227 deles graves. "É possível que a prestação de tratamento médico a pacientes gravemente enfermos possa se tornar difícil", afirma o relatório.

Na quarta-feira, o governador de Osaka, Hirofumi Yoshimura, disse que estava trabalhando para garantir 600 leitos adicionais em enfermarias de isolamento hospitalar que poderiam acomodar pacientes com as infecções mais graves.

Masaya Yamato, chefe de doenças infecciosas do Centro Médico Geral de Rinku, em Osaka, disse que a região está adotando um modelo em que pacientes com coronavírus com sintomas leves podem ficar em casa para economizar leitos hospitalares para os doentes graves.

Em Tóquio, existem apenas 100 leitos designados para lidar com pessoas com doenças infecciosas graves. Na quarta-feira, o governo da cidade prometeu fornecer mais 600. O pedido da governadora de Tóquio para que as pessoas fiquem em casa no fim de semana, segundo Yamato, pode ser muito brando para adiar uma crise.

"É melhor que o primeiro-ministro Abe declare decisivamente um isolamento em Tóquio", disse Yamato. “O impacto econômico não deve ser uma prioridade. Tóquio deve ficar fechada por duas a três semanas. Caso contrário, o sistema de saúde da cidade pode entrar em colapso.

O governo Abe nomeou uma força-tarefa para determinar se ele deve declarar um estado de emergência, uma medida que ele disse ser desnecessária no início deste mês.

Por enquanto, o público está praticamente indiferente. Embora algumas prateleiras de supermercados em Tóquio tenham sido esvaziadas na noite de quarta-feira após o pedido da governadora, no dia seguinte já tinham voltado ao normal. / NYT

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