Sucesso do referendo vira referência internacional para Catalunha e Quebec

Militantes separatistas espanhóis estiveram em meio aos partidários do Yes, na Escócia, enquanto jornalistas do Quebec tentavam entender como o movimento de Edimburgo pode influenciar o Canadá

ANDREI NETTO. ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S. Paulo

18 de setembro de 2014 | 20h58

EDIMBURGO - Em meio ao azul e branco da bandeiras da Escócia, alguns exemplares do pavilhão vermelho e amarelo da Catalunha tremularam nas ruas de Glasgow e Edimburgo, cidades para onde jornalistas do Quebec afluíram em grande número na tentativa de entender como o movimento separatista da Escócia foi tão longe na luta pela independência. A mobilização de militantes e de repórteres estrangeiros de regiões que lutam por mais autonomia atesta como a tentativa de secessão da Grã-Bretanha pode se tornar uma referência para nacionalistas.

Cidade universitária muito procurada por estudantes do programa europeu de intercâmbio Erasmus, Edimburgo é uma capital com perfil cosmopolita. Mas a presença de estrangeiros se intensificou nas últimas duas semanas com a afluência de milhares de jornalistas e dezenas - ou centenas - de militantes de movimentos separatistas europeus, aos quais a imprensa local batizou de "turistas revolucionários". 

Nesta quinta-feira, 18, em Edimburgo e Glasgow, as duas cidades mais populosas do país, bandeiras da Catalunha e do País Basco, regiões que reivindicam independência da Espanha, podiam ser vistas em meio às de eleitores do Yes Scotland, o movimento secessionista escocês. Um desses turistas era David Aguilar, fotografado pela agência Associated Press nas ruas de Edimburgo com uma camiseta na qual se lia a mensagem "Catalans for Yes" e um cartaz "Buzine se for pelo 'sim'". Outra apoiadora estrangeira era Monsi, 33 anos originária de Barcelona e também militante do movimento independentista catalão. "Nós queremos apoiar o povo escocês para alcançar o 'sim'", disse ela, em entrevista à versão britânica do website Huffington Post. "Provavelmente vai nos ajudar, porque eles começaram antes de nós. Isso vai tornar mais fácil para a gente." 

Na quarta-feira, o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, voltou a reprovar o movimento escocês - de olho nas implicações na Catalunha e no País Basco. "Todos na Europa pensam que estes processos são muito negativos", afirmou, referindo-se aos separatistas. "Estes processos são um torpedo contra o espírito europeu, porque a Europa foi construída para integrar Estados, não para fragmentá-los."

Outra demonstração de como o plebiscito na Escócia chamou a atenção do mundo - como alertava há semanas o líder escocês Alex Salmond - foi a presença em grande número de jornalistas oriundos do Quebec, região de colonização francesa no Canadá. Em Montreal, capital regional, um movimento independentista quase arrancou a secessão em um plebiscito realizado em 1995, ao perder por 50,58% contra 49,42%. 

Ontem, a produtora de uma equipe de TV do Quebec entrevistava militantes do "sim" na "Milha de Ouro", uma região do centro de Edimburgo, portando um adesivo azul no qual se lia "Yes Scotland". Ao Estado, o repórter canadense não escondeu o partidarismo. "Queremos entender como os escoceses nacionalistas foram tão longe, porque no Quebec o movimento está ganhando nova força com o exemplo da Escócia", justificou. 

A presença de militantes e jornalistas estrangeiros de regiões separatistas foi em geral bem-vista pelos ativistas escoceses do "sim". "Estamos enviando uma bela mensagem ao mundo: é possível alcançar a independência de forma pacífica", avaliou Robert McMillan, aposentado e eleitor histórico do Partido Nacional Escocês (SNP). "Não é necessário pegar em armas, e sim organizar uma bela campanha comunitária."

Em Bruxelas, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, não escondeu ao longo dos 30 meses de campanha na Escócia que o plebiscito não agravava a União Europeia. Ex-primeiro-ministro da Bélgica, país que enfrenta um movimento separatista na região holandesa de Flandres, Van Rompuy advertiu em diversas oportunidades que um voto pelo "sim" causaria repercussões em toda a Europa.


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