Sudaneses atacam alvos alemães e britânicos

Invasão de embaixadas deixa 3 mortos; países acusam Cartum de incitar violência

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 03h08

Entre todos os protestos pelo mundo islâmico, o Sudão registrou ontem os incidentes com maior número de mortos. Pelo menos três manifestantes morreram em ataques a embaixadas de países ocidentais em Cartum e dezenas ficaram feridos. Na Europa, diplomatas acusam o governo de Omar Bashir de ter incitado a violência e rejeitam a tese de que foi apenas uma reação espontânea ao filme que deprecia a imagem de Maomé.

Pela manha, cerca de 5 mil manifestantes cercaram a embaixada da Alemanha. Uma parte da multidão conseguiu invadi-la e trocar a bandeira alemã por um símbolo islâmico. De lá, a manifestação seguiu até a embaixada da Grã-Bretanha. Manifestantes diziam que o protesto era contra o filme que insulta Maomé. No entanto, fontes em Bruxelas afirmaram ao Estado que o ato foi, provavelmente, organizado por grupos mais radicais ligados ao governo sudanês.

Diplomatas europeus indicaram que, na quinta-feira à noite, líderes islâmicos em Cartum fizeram um chamado para que fiéis protestassem ontem contra o filme. O que chamou a atenção dos europeus é que o apelo veio de uma figura muito próxima do governo.

"O Ocidente, há muito tempo, tem sido um inimigo do Islã e do Sudão", declarou o líder religioso Mohamed Jizouly, forte aliado do governo Bashir.

O Tribunal Penal Internacional condenou o presidente sudanês por crimes contra a humanidade. No ano passado, foi a pressão Ocidental que conseguiu que o Sudão do Sul, cristão, fosse reconhecido como país. Nessa região estão as principais reservas de petróleo.

Nas últimas semanas, o Sudão tem criticado a Alemanha por ter autorizado uma manifestação da extrema direita usando caricaturas de Maomé. Cartum irritou-se com o fato de a chanceler Angela Merkel ter premiado o cartunista dinamarquês que desenhou o profeta em 2005 - um sacrilégio, segundo as versões mais radicais do Islã.

"Bashir está sob pressão de grupos islamistas, que o acusam de ter abandonado os valores do Alcorão", comentou um observador europeu. "Ele sabe que precisa do grupo para continuar governando."

Por mais de uma hora a polícia combateu os manifestantes às portas da representação da Alemanha. Mesmo com bombas de gás lacrimogêneo, as forças de segurança não conseguiram conter o grupo, que invadiu a embaixada.

Alguns manifestantes chegaram ao local onde estava a bandeira alemã, que foi substituída por um cartaz que dizia: "Não há outro deus senão Alá, e Maomé é seu profeta". Vidros, carros e móveis foram destruídos, enquanto os manifestantes dançavam.

O ministro de Relações Exteriores, Guido Westerwelle, garantiu que todos os funcionários estavam bem e convocou o embaixador sudanês para cobrar explicações.

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