Sudão do Sul denuncia bombardeio de vizinho

Governo de Cartum desmente ataque, testemunhado por jornalistas e qualificado pelos sul-sudaneses como uma 'óbvia declaração de guerra'

BENTIU, SUDÃO DO SUL, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2012 | 03h06

Aviões sudaneses bombardearam ontem um mercado e um campo de petróleo do Sudão do Sul. Autoridades sul-sudanesas qualificaram o ataque como uma "declaração de guerra" de Cartum. Pelo menos duas pessoas morreram. A ação do norte, que teria cruzado a fronteira com tanques e artilharia, eleva o risco de um novo conflito armado entre os dois lados.

O Sudão desmentiu as incursões aéreas de ontem, enquanto seu presidente, Omar Bashir, aumentou a tensão com o Sul ao descartar a hipótese de diálogo com o país vizinho.

"Não negociaremos com o governo do Sul porque eles (os líderes sul-sudaneses) não entendem nada além da linguagem da arma e da munição", afirmou o presidente em Heglig, na disputada fronteira entre os dois países, região que foi tomada pelo Sul no dia 10.

No domingo, as forças sul-sudanesas anunciaram sua retirada de Heglig, para onde Cartum enviou suas tropas. Segundo o general sudanês Kamal Abdul Maarouf, que comandou a incursão do Sudão, 1,2 mil militares do Sul foram mortos - o que o governo sul-sudanês desmente. Segundo o coronel Philip Aguer, porta-voz do Exército do Sul, desde o dia 26 o número de mortes entre suas forças "não excedeu 50". O governo de Cartum levou ontem um grupo de jornalistas a Heglig e mostrou a eles corpos de homens com uniformes do Sudão do Sul.

De acordo com a Associated Press, as bombas que atingiram ontem o mercado de Rubkona, nas proximidades de Bentiu, capital do Estado Unidade (Unity State, em inglês), foram lançadas de dois caças MiG-29. A região fica cerca de 80 quilômetros ao sul da mal demarcada fronteira entre os países rivais.

Um jornalista da agência Reuters testemunhou duas explosões, mas não conseguiu identificar as aeronaves. O repórter disse ter visto o mercado em chamas e o corpo de uma criança.

O porta-voz do Exército sul-sudanês, afirmou que, além das duas mortes, o ataque de ontem deixou nove feridos. Segundo o Sul, bombardeiros Antonov acompanhados de MiGs atacaram ainda Abiemnom, também no Estado Unidade, e o campo de petróleo da região. "Bashir está declarando guerra ao Sudão do Sul, isso é óbvio", disse Aguer.

A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, afirmou que Washington condena duramente os ataques de Cartum. "Reconhecemos o direito do Sudão do Sul à autodefesa e pedimos que o país exercite comedimento em sua reação ao ataque do Sudão contra o Estado Unidade."

A representante da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Sudão do Sul, Hilde Johnson, pediu o fim dos "bombardeios indiscriminados". Em um comunicado, a entidade internacional afirmou que seu secretário-geral, Ban Ki-moon, também condenou os ataques, pedindo a Cartum que cesse suas atividades de combate.

O Sudão do Sul tornou-se independente em julho, após um referendo definido por um acordo de paz assinado com Cartum em 2005, que pôs fim a décadas de guerra civil na região.

Atualmente, as forças do Sul têm dez helicópteros, mas nenhum avião de ataque. O Sudão tem 61 aeronaves de combate, entre elas, 23 caças. / REUTERS e ASSOCIATED PRESS

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