Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Sudão do Sul 'nasce' miserável e à beira da guerra

Reconhecido como Estado independente, país africano está entre os mais pobres do mundo e enfrenta tensões com o norte

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2011 | 00h00

Funcionários da ONU revelaram que, nas últimas semanas, tiveram uma missão curiosa: acompanhar um grupo de cantores que percorreu dezenas de cidades marcadas pela guerra para ensinar a crianças e adultos o novo hino do Sudão do Sul. Ontem, a população da região comemorou oficialmente a conquista de sua independência. Resta construir o país inteiro.

A ONU reconhece que, na prática, o novo país já nasce como um Estado falido, entre os mais miseráveis do planeta e à beira de uma guerra.

"Os desafios são enormes", disse ao Estado o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, antes de partir para Juba, capital do novo país. Depois de duas gerações de conflitos com Cartum e cerca de 2 milhões de mortos em ambos lados da fronteira, o governo do Sudão aceitou ceder o território ao sul.

Um acordo de paz foi assinado em 2005 e, há cinco meses, um referendo popular pela independência obteve 99% de apoio à independência. Em teoria, estava encerrado um conflito de duas décadas e a tentativa do Norte de impor a lei islâmica no Sul, com predomínio cristão. Mas o nascimento do Sudão do Sul já corre o risco de tornar-se apenas um novo estopim para a guerra. Assessores de Ban admitiram temer que o dia da festa do nascimento do país, hoje, seja o começo de mais um calvário para a população.

Ontem, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a criação de uma missão de paz com 7 mil soldados e 900 policiais. Mas entidades alertam que isso não será suficiente para evitar uma guerra num território do tamanho do Estado americano do Texas e alertam que o número é inferior ao que a ONU já dispõe na região.

Para organizações de direitos humanos, sem uma força de proteção eficiente, a população cristã do Sul corre o risco de ser massacrada pelos muçulmanos do norte horas depois de terminada a festa da independência.

O mapa oficial do novo país nem sequer tem fronteiras definidas. A presença de minorias do sul em terras do norte fez com que Cartum enviasse tropas para a cidade de Abiyei, iniciando um conflito. Cerca de 40 mil pessoas abandonaram suas casas e até o governador da região exilou-se em Juba. Ao menos 2,6 mil pessoas já morreram no conflito neste ano.

Miséria. "Quer saber qual é o tamanho da miséria no Sudão do Sul ?", questionou a chefe de operações humanitárias da ONU no país, Lise Grande. "É fácil: hoje, é maior a probabilidade de uma mulher no Sudão do Sul morrer durante o parto do que de terminar a escola primária", disse.

Apenas 15% dos 9 milhões de habitantes sabem ler. A taxa de escolaridade é a mais baixa do planeta e a de mortalidade infantil, a mais alta. Pelo menos 90% da população vive com apenas US$ 0,50 por dia, enquanto 1% tem conta bancária e o país inteiro conta com apenas 320 quilômetros de estradas.

 

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