AP Photo/Jason Patinkin, File
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Sudão do Sul sofre com fome e conflitos

Apesar de acordo de paz, país chega ao seu quinto ano com situação pior do que antes

Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2016 | 05h00

O quinto aniversário do Sudão do Sul – país mais jovem do mundo –, no sábado, terminou com cerca de 150 pessoas mortas em razão de violentos confrontos entre soldados leais ao presidente Salva Kiir e a guarda do vice-presidente Riek Machar, elevando mais uma vez a tensão na região.

Mais de 2 anos e meio depois da guerra civil iniciada em dezembro de 2013 – quando Kiir, da etnia dinka, denunciou uma tentativa de golpe de Estado liderada por Machar, da etnia nuer –, os dois assinaram um acordo de paz e formaram um governo de união nacional. No entanto, os combates entre soldados leais a cada um dos líderes não foram totalmente interrompidos.

“Basicamente o que o acordo de paz fez foi retornar a situação do país ao patamar que estava antes do início da guerra civil, no qual várias pessoas que não confiam umas nas outras fazem parte de um mesmo governo”, explica Nelson Kasfir, professor emérito da Universidade Dartmouth, nos EUA, que estuda a questão sul-sudanesa desde antes da independência.

“De certa maneira, as coisas estão muito piores do que estavam. O presidente permitiu a volta de seu ex-aliado e disse: ‘tudo bem, você recuperou sua posição; agora, coopere’. Na prática, porém, Machar manteve mobilizados os combatentes que comanda, e continuam os episódios esporádicos de violência, que podem aumentar.”

Mas não são apenas os conflitos que fazem a situação do Sudão do Sul estar entre as piores do mundo. O número de sul-sudaneses que passa fome é cada vez maior. A ONU estima que 5 milhões de pessoas não têm acesso regular a alimentos.

Além disso, o custo de vida disparou desde 2011, com uma inflação acumulada em torno de 300%, e a Libra sul-sudanesa, moeda do país, perdeu praticamente 90% do seu valor, segundo dados do FMI. 

A economia, que depende quase inteiramente da exportação de petróleo, está em queda livre, contribuindo para que o Sudão do Sul dependa cada vez mais da ajuda internacional. 

Origem. Para tentar entender a situação atual, Kasfir diz que é preciso voltar no tempo e rever o Tratado de Naivasha, assinado em 2005 para pôr fim à guerra-civil entre o governo do Sudão e os independentistas sul-sudaneses – primeiro passo rumo à separação dos dois países.

“O fim da guerra civil foi uma grande conquista e por isso as negociações devem ser aplaudidas, mas ao mesmo tempo esse processo resultou numa série de questões que criaram os problemas vividos hoje pelo Sudão do Sul”, pondera Kasfir.

Entre eles estão o fato de apenas os grupos que combatiam na guerra civil terem sido incluídos na política do novo país, além de não terem sido tomadas medidas formais para encerrar combates na região fronteiriça e os negociadores terem ignorado a falta de confiança que havia entre Kiir e Machar, líderes do Movimento Popular de Libertação do Sudão.

Essa conjuntura, combinada com o fato de que o Sudão do Sul jamais teve uma eleição que permitisse a alternância de poder desde a independência, criaram um país extremamente difícil de governar.

“Kiir não conseguiu fazer um bom trabalho como presidente. As políticas de desenvolvimento do Sudão do Sul, de sua independência até o início do conflito em dezembro de 2013, consistiram basicamente em dar dinheiro para as pessoas e permitir que as demais aproveitassem qualquer oportunidade para ganhar dinheiro, alimentando a corrupção”, afirma Kasfir. “Isso fez o presidente ser desafiado por Machar e outros políticos que querem ter a chance de comandar.”

Situação. Dados da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) indicam que um em cada quatro civis (cerca de 2,6 milhões dos 11 milhões de sul-sudaneses) está deslocado internamente ou fugiu para países vizinhos em razão da violência. A organização diz que, depois da assinatura do acordo de paz de 2015, o número de deslocados dentro e fora do país aumentou.

Outro estudo divulgado pela Anistia Internacional (AI) aponta que o país é incapaz de lidar com altos níveis de trauma mental causados pelos vários anos de conflito. O uso recorrente de estupro, tortura e assassinato de civis como arma de guerra pelos soldados deixou grande parte da população com sintomas de Transtorno de Estresse Pós-traumático.

A prova de que o sistema de saúde mental do Sudão do Sul é “praticamente inexistente”, segundo a AI, é o fato de que o país conta com apenas dois psiquiatras que trabalham meio período, e tem uma única ala psiquiátrica considerando todos os seus hospitais. / COM AFP

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