Sudão pode fazer concessões nas conversações de paz em Darfur

O Sudão parece estar pronto para desarmar a milícia Janjaweed rapidamente e aceitar mais rebeldes nas suas forças de segurança, concessões exigidas pelos rebeldes nas conversações de paz de Darfur, informou o porta-voz do governo, Abdulrahman Zuma, nesta quarta-feira. "Através dessa iniciativa norte-americana, parece que o governo fará algumas concessões, especialmente sobre a reintegração e o desarmamento", afirmou Zuma à AP. O subsecretário de Estado americano, Robert B. Zoellick, voou até Abuja, onde as conversações começaram, para tentar impedir que o projeto de paz da União Africana fosse cancelado. Dois sudaneses próximos à negociação afirmaram nesta quarta-feira que viram uma reforma radical no tratado que modificaria substancialmente a proposta inicial.Já o porta-voz do principal Movimento de Libertação do Sudão, Jaffer Monro, disse que se a proposta inicial não fosse significativamente alterada, os rebeldes poderiam pressionar as Nações Unidas ou outro órgão internacional para assumir o controle das conversações de paz da União Africana.A União Africana liderou as conversações durante dois anos, e seus mediadores freqüentemente expressavam suas frustrações ao ver a má vontade de ambos os lados em chegar a um acordo ou aderir ao cessar-fogo declarado em abril de 2004.Denis Sassou-Nguesso, presidente da República do Congo e atual líder da União Africana - composta por 53 países -, e outros líderes do continente eram esperados, nesta quarta-feira, na Nigéria, para achar uma solução para uma crise que já fez dezenas de milhares de vítimas. Os mediadores da União Africana determinaram o domingo como data limite para a aceitação do acordo original por ambas as partes, mas adiaram esse prazo duas vezes após receberem as objeções dos rebeldes. A última data limite é na próxima quinta-feira. Perguntado sobre o que acontecerá caso não se chegue a um acordo na quinta-feira, o mediador chefe da União Africana, Salim Ahmed Salim, afirmou: "Continuarão os assassinatos, continuará o sofrimento, e toda a destruição que vem acontecendo." O deputado americano Zoellick foi mandado para a sessão após milhares de pessoas se reunirem no fim de semana nos EUA para pedir o fim da violência em Dafur.O presidente dos Estados Unidos George W. Bush conversou com o presidente sudanês Omar al-Bashir, na noite de segunda-feira, sobre a importância da paz em Dafur, segundo informaram a Agência Sudaneza de Imprensa e Frederick Jones, porta-voz do Conselho Nacional de Segurança. Bush descreveu os ataques apoiados pelo governo contra civis em Dafur como genocídio. Durante a conversa, Bush pediu a al-Bashir para que mandasse seu vice-presidente, Ali Osman Mohammed Taha - que deixou Abuja na segunda-feira -, de volta às conversações de paz. Ele ainda aconselhou al-Bashir a aceitar uma missão de paz da ONU em Dafur patrocinada pela OTAN. Os dois principais grupos rebeldes acusam o governo central de menosprezar o empobrecimento de Dafur, apesar de ambos terem lutado entre si por territórios. Além disso pelo menos um deles desenvolveu facções internas.Décadas de pequenas disputas tribais em Dafur explodiram em violência de larga escala no início de 2003. O governo central é acusado de apoiar milícias tribais árabes conhecidas como Janjaweed contra civis. O Sudão, no entanto, nega as acusações. Dafur vem sendo um campo de treinamento para rebeldes do Chad, que se rebelaram contra o governo local; o Sudão acusa o Chad de apoiar os rebeldes de Dafur. A violência só tende a aumentar: Osama bin Laden pediu a seus seguidores, na semana passada, que movam-se ao Sudão para lutar contra um possível destacamento da ONU. Mesmo com a continuidade do acordo de paz na capital nigeriana, oficiais das Nações Unidas reportaram uma onda de batalhas em Dafur, onde um conflito de três anos deixou ao menos 180 mil mortos e mais de 2 milhões de desabrigados.Ted Chaiban, líder das operações da UNICEF no Sudão, afirmou que a maioria dos ataques das milícias árabes se localizam em Gereida, ao sul de Dafur, onde, segundo a fundação, cerca de 200 mil pessoas ficaram desabrigadas nos últimos três meses. "É importante que o acordo seja assinado para que esse tipo de ato (...) acabe", disse na terça-feira Chaiban.

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