Sudão se divide para fugir de pressões

País aceita ''sacrifício'' para se reintegrar à comunidade internacional, mas o futuro Sudão do Sul é ameaçado por novos conflitos étnicos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / CARTUM

Sudão significa "terra dos negros" em árabe. Um olhar estrangeiro, que vê a pele, o nariz e o cabelo, confirma essa generalização. Mas muitos sudaneses não se veem como negros, e sim como árabes.

Ao longo de cinco décadas, desde um ano antes da independência em relação à Grã-Bretanha, em 1956, até o acordo de paz de 2005, os árabes muçulmanos do norte e os negros cristãos e de religiões africanas do sul enfrentaram-se em guerras intermitentes que deixaram centenas de milhares de mortos.

As potências mundiais e toda a região envolveram-se nessa disputa pelo território do maior país da África, que ganhou contornos de choque de civilizações entre o mundo árabe-muçulmano e o negro cristão. O Sudão abrigou entre 1991 e 1994 Osama bin Laden, que morava no elegante (para os padrões de Cartum) bairro de Riyadh, convenientemente perto do aeroporto. A Corte Internacional de Haia emitiu em 2009 ordem de prisão por genocídio contra o presidente Omar al-Bashir, no poder desde 1989, por causa do conflito na região de Darfur (oeste do país) - também entre árabes e negros, embora todos muçulmanos -, que teria deixado 300 mil mortos.

Conforme previsto no acordo de 2005, os sudaneses do sul realizaram referendo em janeiro, quando 98,8% votaram pela separação. O Sudão do Sul terá cerca de 11,4 milhões de habitantes; o Sudão tem outros 33,6 milhões, incluindo os 7 milhões de Darfur. A independência do Sudão do Sul será proclamada em julho. Seu governo e Parlamento foram eleitos há um ano, em eleições gerais, que deram a Bashir mais cinco anos de mandato. O vice-presidente do Sudão, Salva Kiir Mayardit, será o presidente do 193.º país do mundo.

Os EUA impõem embargo econômico contra o Sudão, além de o manterem na lista dos patrocinadores do terrorismo. Pelo "sacrifício" da divisão, o Sudão espera em troca o levantamento das sanções, a reintegração do país à comunidade internacional e a pressão dos EUA e da Europa para que os rebeldes de Darfur - que exigem mais autonomia, não independência - negociem com o governo o fim do conflito, como já fez uma das facções.

Tanto os cidadãos comuns quanto as autoridades dos dois lados falam da separação como um casal, numa espécie de diálogo virtual promovido pelo Estado nas capitais Cartum, do Sudão, e Juba, do Sudão do Sul. Os sudaneses do norte se sentem rejeitados e prejudicados; os do sul, aliviados e otimistas. É do sul que sai a principal riqueza do país, o petróleo. Mas é para refinarias do norte que o petróleo é levado. A divisão da receita é meio a meio.

Resta sem solução a situação de Abyei, região da nova fronteira, rica em petróleo, disputada entre negros dinkas e árabes misseryas, nômades que tradicionalmente no verão levam seus rebanhos para pastar nas terras mais úmidas do sul. A partir de julho, estarão cruzando a fronteira de outro país. Mas o sul também não está livre de conflitos internos. As tribos equatoriais, de agricultores sedentários, em cujas terras está a nova capital, Juba, sentem-se prejudicadas pelas tribos nilóticas, originalmente nômades, que são maioria no novo país. Fala-se em um novo conflito étnico, entre os povos do sul.

PARA LEMBRAR

Em referendo realizado em janeiro, 98,3% dos sudaneses do sul votaram pela separação em relação ao norte. Segundo o calendário programado, o país passará a existir oficialmente a partir de julho. Salva Kiir, líder e provável presidente do Sudão do Sul, prometeu cooperar com o norte. Os dois vizinhos, no entanto, têm várias questões pendentes, como fronteiras e a distribuição das receitas do petróleo.

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