REUTERS/Leah Millis/File Photo
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Sugestão de Trump de adiar eleições tenta minar legitimidade da votação, dizem analistas

Sem evidências, presidente dos EUA têm falado em possibilidade de fraudes; medida dependeria de aprovação do Congresso e nunca ocorreu na história americana

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 15h21

A sugestão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de adiar as eleições presidenciais pelos riscos de fraude em uma votação por correio - que já é prevista no país - é uma ameaça para a democracia americana e um ataque à legitimidade do processo eleitoral, afirmaram analistas ao Estadão nesta quinta-feira, 30. 

"É uma das coisas mais graves de seu governo. Nunca antes um presidente americano ousou dar uma declaração como essa", explica o professor de relações internacionais Carlos Poggio, da FAAP, que fez pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Georgetown sobre a ascensão de Trump à presidência.  

"Ele brinca com a possibilidade de adiar uma eleição, não por conta do vírus porque ele nem pode falar isso, já que fez até comícios, mas por desconfiar que o sistema é fraudado", disse Poggio, lembrando que nunca uma eleição nos EUA foi adiada. "É uma medida que estimula uma série de eleitores, principalmente aqueles com menor nível educacional, a começar a duvidar do sistema. É um estrago que vai permanecer para a posteridade". 

A declaração de Trump ocorre no momento em que as principais pesquisas mostram uma derrota para o ex-vice-presidente Joe Biden e no mesmo dia da divulgação de uma queda histórica de 32,9% do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no segundo trimestre de 2020. Foi a maior baixa desde a Grande Depressão, na década de 1930 - muitos americanos associam os maus resultados e uma gestão confusa da pandemia com a gestão Trump. Os EUA são o país com mais casos e mortes decorrentes do coronavírus

"Não é uma proposta séria, é mais uma tentativa de questionar a confiabilidade do resultado das eleições e mobilizar os seus eleitores para o caso de uma recontagem", afirmou o pesquisador Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP.

"Essa narrativa gera dúvidas em relação à legitimidade do processo eleitoral e é uma ameaça para a democracia americana ter um presidente assim". Na avaliação de Stuenkel, uma narrativa como essa tem custos futuros para o sistema político e democrático dos Estados Unidos. "Nunca houve um presidente que adotasse esse tipo de estratégia". 

Reação dos republicanos 

Horas depois da declaração de Trump, senadores republicanos afastaram a possibilidade de adiar a eleição. "Tenho preocupações de que as cédulas por correio sejam a única maneira de votar, mas não acredito que devamos atrasar as eleições", afirmou o senador Lindsey Graham, um aliado próximo da Casa Branca. "Provavelmente não seria uma boa ideia". 

O líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, destacou que as eleições não foram adiadas em crises ao longo da história americana, nem mesmo durante a Guerra Civil, e também não seriam agora. "Encontraremos uma maneira de fazer isso novamente em 3 de novembro", disse. "Desde 1845 tivemos uma eleição na primeira terça-feira após o 1º de novembro e teremos outra vez", afirmou o senador Marco Rubio a repórteres nesta quinta. 

Trump aposta no discurso de que uma votação por correio seja fraudada, embora não haja evidências de que isso tenha ocorrido nem de que o sistema tenha vulnerabilidades. O presidente não tem a prerrogativa de adiar as eleições e depende do Congresso para que a medida possa ser aprovada. 

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