Suíça congela bens de Mubarak e família

Anúncio é feito logo após renúncia do ex-ditador; autoridades suíças não revelam total de ativos congelados, que ficarão indisponíveis por 3 anos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

A Suíça congelou a fortuna do ex-presidente do Egito Hosni Mubarak, de sua família e de toda a cúpula do seu regime, inclusive do maior importador de aço do Brasil no Oriente Médio. Além de Mubarak, os suíços já congelaram os ativos do ex-presidente da Tunísia Zine al-Abidine Ben Ali e de Laurent Gbagbo, da Costa do Marfim.

Depois de 30 anos no poder, a família Mubarak e seus aliados controlam uma parte substancial da economia do país.

O jornal The Guardian chegou a afirmar que a fortuna de Mubarak poderia variar entre US$ 40 bilhões e US$ 70 bilhões, o que o colocaria na posição de o homem mais rico do planeta. Os suíços se recusam a apontar o valor congelado nos bancos do país.

Lars Knuchel, porta-voz do governo suíço, confirmou ontem ao Estado que a decisão de congelar os ativos foi tomada logo após o anúncio da queda de Mubarak, indício de que os suíços já estavam preparando a medida há dias. Os recursos ficarão congelados por três anos, para dar tempo para que um eventual novo governo egípcio possa iniciar os trâmites para repatriar o dinheiro para os cofres públicos se ficar provado que foram gerados por corrupção. Se Mubarak e seus filhos quiserem os recursos de volta, terão de provar sua origem.

Nos anos 80, Mubarak chegou a promover uma luta contra a corrupção e colocou na prisão pessoas ligadas aos regimes anteriores. Mas jamais abriu inquéritos contra membros de seu governo e insistia que sua família nunca havia tirado proveito de sua posição.

Na Justiça suíça, porém, não é isso que ficou provado em recentes avaliações dos fundos do ex-ditador.

O que se acredita é que Mubarak usou as leis do Egito para se beneficiar. Nos anos 90, estabeleceu que qualquer empresa estrangeira precisaria encontrar um parceiro local para se instalar ou investir.

Como resultado, hotéis de luxo, lojas e fábricas passaram a buscar os próprios filhos de Mubarak para fechar os contratos. E todo o contrato militar passaria por sua mesa.

Além das contas, Mubarak teria investimentos e propriedades na Europa e EUA. Isso sem contar um império na área de construção no Egito e no balneário de Sharm El Sheik. Sua mansão de seis andares na região de Knightsbridge, em Londres, virou ponto turístico. Outra mansão em seu nome está em Paris.

Segundo a entidade Transparência Internacional, a família Mubarak e seus aliados cobravam uma propina que poderia variar entre 5% e 20% dos investimentos feitos por uma multinacional no país. Gamal Mubarak, filho do ex-ditador e ex-banqueiro no Bank of America, seria o homem que controlaria a chave do cofre. Criou a MIP, empresa que "ajudava" multinacionais a encontrar oportunidades de investimento no Egito. Ahmed Ezz, assessor direto de Gamal, é outra peça-chave do esquema de corrupção no Egito.

Hoje, ele importa mais de US$ 100 milhões em minérios do Brasil, o que o faz um dos maiores compradores do Oriente Médio. Alaa, filho mais velho de Mubarak, controla por exemplo todo o abastecimento das companhias aéreas que pousam no aeroporto do Cairo.

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