Suíça ingressa na ONU mas deve evitar adesão à UE

Com um atraso de meio século, os suíços decidiram, no domingo, por meio de uma votação, filiarem-se à Organização das Nações Unidas. Conseqüentemente, no próximo outono, a Confederação Helvética se tornará o 190º Estado membro da ONU. O "sim" à ONU triunfou, mas por pouco. No tocante ao número de votos, a maioria foi claramente atingida (54,6% dos suíços aprovaram a filiação). Mais trabalhoso foi conseguir o "sim" da metade mais um dos cantões suíços. No total, o "sim" venceu em 12 dos 23 cantões da Federação. É por isso que os suíços falavam ontem de uma vitória "friorenta". Apesar disso, esta vitória tem muito sentido, porque contradiz um dos dogmas mais enraizados do gênio da Suíça, sua legendária neutralidade.Não nos esqueçamos que, na última "votação", em 1968, três quartas partes da população suíça rejeitaram a entrada na ONU.Podemos observar distorções consideráveis entre os diferentes cantões do país. Uma cidade se distingue por seu zelo: trata-se de Genebra, onde a ONU conseguiu quase 70% dos votos a favor da filiação. Nada de estranho: Genebra, na encruzilhada dos caminhos da Europa, às portas da França, tem uma vocação internacional muito antiga.Além disso, em Genebra estão implantadas muitas das "agências especializadas" da ONU: a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Internacional do Trabalho (OIT). o Alto Comissariado para os Refugiados. Ora, estas agências trazem à cidade de Genebra uma onda financeira não desprezível: trinta mil funcionários internacionais e suas famílias residem em Genebra.Em conjunto, a parte ocidental da Confederação apoiou com mais entusiasmo o projeto do que a parte oriental. Mas as grandes cidades de língua alemã, que se acreditava não serem tão entusiastas, também deram o seu apoio - Zurique, Berna ou Lucerna.É preciso dizer que todos os grande partidos, sobretudo à "esquerda", fizeram apelos para que os cidadãos esquecessem a "neutralidade de uma outra época". Apenas o líder da direita populista, Christophe Blocher, fez previsões apocalípticas: "Infelizmente, isso irá levar ao enfraquecimento da Suíça".Como se explica a mudança da mentalidade suíça?Muitas explicações são formuladas: alguns afirmam que o secretário geral da ONU, Kofi Annan, fez seus estudos na Suíça, o que pode parecer um argumento meio frívolo.Outros explicam que a neutralidade suíça era um anacronismo muito obsoleto, e que a Suíça tinha larga experiência na administração de organizações internacionais , acolhendo muitas das agências das Nações Unidas em Genebra. E a Cruz Vermelha, que está na Suíça, não é uma das mais antigas instituições interessadas na sorte de outras nações?Enfim, as últimas peripécias do mundo desempenharam o seu papel: o trauma das Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York, no dia 11 de setembro, mostrou que todos nós habitamos o mesmo globo terrestre. E o processo da globalização, descrito como um fato irreversível, impunha que este pequeno país opulento, colocado no próprio coração da Europa e já ligado as todas as capitais por seu papel de "banqueiro superlativo", esquecesse o seu "esplêndido isolamento" - sem, entretanto, renunciar absolutamente à sua identidade e às suas singularidades.Algumas pessoas perguntam agora se o próximo passo da Confederação Helvética não seria um possível pedido de adesão à União Européia?A resposta é geralmente "não". Pode-se até afirmar que a filiação à ONU mais afasta do que aproxima a Suíça da Europa unida.Expliquemos este pequeno mistério: a comunidade patronal suíça, que se arranja muito bem para acumular fortuna sem a ajuda de Bruxelas, é, em conjunto, muito hostil à União Européia. Ora, observamos com surpresa, durante a campanha para o referendo sobre a filiação à ONU, que o empresariado suíço apoiou financeiramente o voto favorável à ONU; esta generosidade seria apenas uma habilidade e um ardil. Os empresários teriam apoiado a adesão à ONU, que não constitui nenhuma aposta econômica pesada, para "limpar a barra", a fim de ter as mãos mais livres para bloquear ferrenhamente eventuais tentativas para levar a Suíça a entrar na União Européia. Ah, estes suíços!

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.