ERNESTO BENAVIDES / AFP
ERNESTO BENAVIDES / AFP

Suicídio de Alan García põe procuradores peruanos na defesa

Partido do ex-presidente acusa Judiciário de perseguição; promotor do caso Odebrecht diz que protocolo foi ‘seguido rigorosamente’

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2019 | 20h59

LIMA - O suicídio do ex-presidente peruano Alan García, cujo corpo começou a ser velado nesta quinta-feira, 18, na sede de seu partido, em Lima, dividiu o país e provocou críticas contra o Ministério Público por sua política agressiva de pedir a prisão preventiva dos investigados pelo escândalo de corrupção da construtora brasileira Odebrecht.

Cenas de dor se multiplicaram ontem na sede do partido de García, onde centenas de pessoas passaram diante do caixão para prestar homenagens ao ex-presidente. Os simpatizantes tentavam tocar o ataúde, coberto por uma bandeira peruana e outra do partido Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra). O velório termina na sexta-feira e o corpo será cremado em um cemitério de Lima.

García morreu na quarta-feira em um hospital após atirar contra sua cabeça quando a polícia chegou ao local para prendê-lo por dez dias como parte de uma investigação sobre lavagem de ativos ligados à Odebrecht. A arma usada foi um presente da Marinha peruana durante seu mandato.

O governo decretou três dias de luto nacional, mas a família rejeitou qualquer homenagem de chefe de Estado. “A decisão da família é que não haja atos oficiais”, disse o congressista Jorge del Castillo. Os parentes de García, que teve seis filhos de três relações diferentes, não aceitaram a presença de nenhum representante do governo nas cerimônias, nem coroas de flores de autoridades.

Perseguição

O partido atribui o suicídio de García a uma perseguição de setores da imprensa e do Ministério Público, com respaldo do atual presidente, Martín Vizcarra. “O que algumas pessoas e um setor da imprensa queriam era vê-lo enquadrado. Essa não é a forma de tratar um presidente. Ele não ia permitir, como não permitiu”, disse Castillo.

O MP abriu uma investigação contra dois procuradores que participaram da prisão de García. “O protocolo estabelecido para este tipo de diligência foi seguido rigorosamente, respeitando os direitos do senhor García como investigado”, disse o procurador especial, Rafael Vela.

Também são investigados por corrupção no Peru os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018) - que está em prisão preliminar, no âmbito do mesmo escândalo da Odebrecht.

Carla García, filha mais velha do ex-presidente, disse que a verdade provará a honestidade de seu pai. “São momentos difíceis, nos quais sinto muita tristeza, mas me acompanham a dignidade e as lições de vida que ele me deu. Despeço-me muito orgulhosa de ser filha de Alan. A verdade prevalecerá”, escreveu Carla no Twitter.

Antes de ser emitida a ordem de prisão, García tinha declarado, na terça-feira, que não buscaria asilo nem se esconderia. Ele não podia deixar o país por uma ordem judicial. O mandado de prisão contra ele buscava recolher elementos que permitissem ao MP acusá-lo de ser “chefe de organização criminosa”.

Semanas atrás, o ex-presidente declarou: “Não há nenhuma declaração, prova ou depósito que me ligue a qualquer ato criminoso, muito menos à empresa Odebrecht”. / AFP

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