Suicídio de vítima de ataque com ácido assombra o Paquistão

Casada com membro da elite paquistanesa, Fakhra Younas teve de passar por 38 cirurgias no rosto e fugir do país

DECLAN WALSH, THE NEW YORK TIMES, KARACHI, PAQUISTÃO, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2012 | 03h06

A paquistanesa Fakhra Younas submeteu-se a 38 cirurgias, na esperança de corrigir as terríveis marcas deixadas por um homem que, por vingança, jogara ácido em seu rosto, dez anos antes. O ataque praticamente derreteu sua boca, nariz e orelhas.

A dolorosa maratona de operações ocorreu em Roma, cidade que ofereceu a Fakhra refúgio, a generosidade de estrangeiros e um tratamento. No dia 17, depois de ansiar em vão por rever o Paquistão - país que sempre amou, embora seu sistema judiciário tenha fracassado no caso dela -, Fakhra subiu no terraço do sexto andar de um prédio de apartamentos no sul de Roma, onde morava, e pulou. A notícia de sua morte chegou à sua cidade, Karachi, juntamente com o caixão, para o sepultamento.

A morte de Fakhra estimulou a imprensa paquistanesa. Deputados prometeram tomar medidas e um líder político pediu a reabertura do caso. Mas especialistas em direito mostraram-se céticos quanto aos resultados. O homem que Fakhra durante muito tempo acusou pelo ataque - seu ex-marido, Bilal Khar - foi declarado inocente no processo realizado há nove anos.

O caso da paquistanesa produziu enorme onda de revolta, além de um filme de sucesso. Em fevereiro, Charmeen Obaid-Chinoy, uma cineasta de Karachi, ganhou o primeiro Oscar pelo filme Saving Face (trocadilho que, em tradução livre, seria algo como "salvando a face"). O documentário fala das vítimas da violência cometida com ácido.

O ácido é a arma preferida de homens que querem se vingar de mulheres acusadas de deslealdade ou desobediência. Esses ataques cresceram no Paquistão: de 65, em 2010, para 150, em 2011.

Ao contrário da maioria dos acusados de cometer ataques com ácido, o algoz de Fakhra é de uma família poderosa, dona de fazendas na Província do Punjab. Seu pai, Mustafá, é um ex-governador; sua prima Hina Rabbani Khar é a ministra das Relações Exteriores do Paquistão.

Amigos de Fakhra afirmam que o sucesso do filme não conseguiu acabar com sua sensação de isolamento. O fato de que o homem que a atacou, roubou sua beleza e acabou com sua vida, permaneceu livre só fez piorar sua agonia - até que, no dia 17, ela se tornou insustentável.

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