RHONA WISE / AFP
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Suicídios de sobreviventes do massacre em Parkland causam debate sobre auxílio psicológico nos EUA

Casos levantam questionamentos sobre a ajuda psicológica que tem sido dada a vítimas de tragédias como essa e se tornam pauta no Congresso dos Estados Unidos

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 22h11

MIAMI - Nesta quarta-feira, 27, a polícia de Coral Springs - uma pequena cidade vizinha a Parkland, ao norte de Miami - confirmou que Calvin Desir, de 16 anos, morreu no sábado em aparente suicídio. Desir foi um dos sobreviventes do ataque contra a escola Marjory Stoneman Douglas (MSD) em 14 de fevereiro de 2018, quando um ex-aluno entrou armado com um fuzil semiautomático AR-15 e matou 17 pessoas.

Uma semana antes de Desir, outra estudante da MSD, Sydney Aiello, de 19 anos, cometeu suicídio. A mãe de Sydney disse à imprensa local que a filha sofria havia um ano por "culpa de sobrevivente", na qual a vítima se pergunta por que ela - e não as outras pessoas - foi salva da morte, e da síndrome do estresse pós-traumático.

Na noite do domingo (24), pais, estudantes, funcionários e professores da pequena comunidade de Parkland e da vizinha Coral Springs tiveram uma reunião de emergência para discutir como melhorar o apoio terapêutico para lidar com o trauma deixado por um dos piores ataques a tiros da história recente dos EUA.

"É um dos muitos encontros com especialistas em saúde mental da cidade e do condado para garantir que nossos estudantes, professores e pais recebam a informação necessária para prevenir o próximo suicídio", explicou Max Schachte, pai de Alex, um dos 17 que morreram no ataque de Parkland. "Todos estão levando esta crise a sério para salvar vidas", acrescentou no Twitter.

A polícia de Coral Springs realizou um evento sobre saúde mental e prevenção do suicídio nesta quarta-feira. "Não podemos permitir que os acontecimentos daquele dia tirem a vida de outros dos nossos filhos", escreveu a polícia.

Na Flórida, o chefe de divisão de gestão de emergências pediu aos legisladores estaduais que destinem mais recursos para ajudar sobreviventes do massacre de Parkland. "A saúde mental é um assunto bipartidário", disse Jared Moskowitz no Twitter. "Agora que estamos em plenário, é o momento."

Sandy Hook.

Um terceiro suicídio chamou atenção na segunda-feira 25, quando foi informado que o pai de uma menina morta no ataque da escola Sandy Hook, também tirou a própria vida.

Jeremy Richman, de 49 anos, perdeu sua filha, de 6 anos, no massacre em Connecticut, que terminou com 20 crianças e 6 adultos mortos.

Segundo Ryan Petty, pai de uma jovem vítima de Parkland, Richman havia visitado as vítimas da cidade do sul da Flórida havia apenas uma semana. "Ele esteve aqui em Parkland na semana passada, veio conhecer algumas das famílias daqui, para ajudar", disse Petty, cuja filha de 14 anos, Alaina, também morreu no ataque de Parkland. "É devastador saber que (Richman) estava sofrendo", acrescentou.

Petty, que lançou a Fundação Walk Up (walkupfoundation.org) em Coral Springs no ano passado para ajudar a prevenir o suicídio, disse que há uma "alta correlação entre o suicídio e os ataques em massa, particularmente nas escolas".

Por um lado, a grande maioria dos agressores em massa pensou em acabar com suas vidas. "Então, uma das maneiras de identificar uma ameaça potencial a uma escola é saber se um estudante está pensando em se suicidar", disse Petty, explicando que "este é um dos indicadores".

A correlação também é forte após um ataque. "Após esses eventos de múltiplas mortes, há trauma, dor, ansiedade e depressão, e esse trauma, se não for bem administrado, pode infelizmente levar aos resultados trágicos que temos hoje", acrescentou o ativista de segurança escolar.

Petty acrescentou que o grupo adotou o "Protocolo de Columbia" - uma série de perguntas que podem ajudar parentes e amigos a detectar se alguém corre risco de suicídio. Se as respostas forem positivas, é recomendado entrar em contato com o telefone de prevenção ao suicídio.

No Twitter, ficou popular a fórmula "17+2", para se referir ao número de vítimas fatais que o ataque de Parkland deixou, mais os sobreviventes que cometeram suicídio.

"Parem de nos dizer 'já já superaremos'. Ninguém supera algo que nunca deveria ter acontecido", escreveu David Hogg, um dos sobreviventes que alcançou notoriedade nacional após o ataque por seu combate à venda livre de armas. "O trauma e a perda não somem simplesmente. Você tem de aprender a viver com eles e buscar apoio", afirmou o ativista de 18 anos.

O superintendente de escolas de Broward - o condado onde fica Parkland -, Robert Runcie, estimulou sobreviventes, amigos e parentes das vítimas a visitar o "Centro de Resiliência" estabelecido em um parque perto da escola, onde há médicos disponíveis toda a tarde. / AFP

 

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