Sumiço de futuro líder chinês causa especulação

Xi não faz aparições públicas há dias e rumores vão de dor nas costas a ataque cardíaco leve

IAN JOHNSON , THE NEW YORK TIMES / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2012 | 03h01

O paradeiro do provável futuro presidente da China, Xi Jinping, que não tem aparecido em público nos últimos dias enquanto o país se prepara para importantes mudanças na liderança, tem causado especulações no Ocidente.

Na semana passada, Xi Jinping cancelou reuniões que manteria com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, e o primeiro-ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong. Ontem, não compareceu a um encontro com o premiê da Dinamarca.

Embora os líderes chineses costumem não aparecer em público por longos períodos, o cancelamento de reuniões com autoridades estrangeiras no último minuto é algo inusitado. À incerteza, adiciona-se o fato de não ter havido comunicado sobre algum problema de coluna ou um ataque cardíaco menos grave, hipóteses mencionadas na China. "Existe todo o tipo de rumor sobre a saúde de Xi", disse um jornalista. "Mas ninguém informa nada."

Esses rumores vêm se somar a outras questões levantadas nessa não tão tranquila transferência de poder do presidente, Hu Jintao, para Xi Jinping.

No início do ano, um líder comunista do alto escalão, Bo Xilai, desapareceu da vista pública depois que sua mulher foi acusada do assassinato de um empresário britânico. Há dias, uma outra autoridade foi inesperadamente rebaixada de posto após um escândalo envolvendo seu filho.

Nenhuma data foi marcada para a realização do 18.º Congresso do partido, quando se realizará a mudança de presidente. O consenso é que a reunião ocorrerá em outubro, mas até agora nenhum comunicado foi feito. "Não há indicações de que tudo corra bem", disse Bo Zhiyue, professor de ciências políticas na Universidade Nacional de Cingapura.

O sistema político da China é uma caixa-preta, mas esse sigilo começa a se tornar mais anacrônico na medida em que o país se transforma numa das maiores potências militares, políticas e econômicas do mundo.

"As autoridades estão preocupadas com qualquer coisa que possa prejudicar a transição", disse Joseph Y. S. Cheng, professor de ciências políticas da City University de Hong Kong. "Mas essa preocupação está funcionando contra os interesses delas; elas devem emitir um comunicado claro a respeito."

Alguns dos rumores são de que Xi teve um problema de coluna nadando ou jogando futebol; o que foi confirmado por diplomatas estrangeiros - e causou o cancelamento das reuniões com Hillary e o premiê de Cingapura.

Menos confiável é um outro rumor, de que Xi teria se ferido num acidente de carro, quando um oficial militar ligado a Bo Xilai tentou matá-lo, por vingança - notícia que foi desmentida.

Um analista bem relacionado em Pequim disse ter recebido informação de membros do partido segundo a qual Xi teria sofrido um ataque cardíaco.

"Eles disseram que a situação de saúde dele, porém, não afetaria o congresso do partido", afirmou o analista.

Ontem, no entanto, a situação ficou ainda mais estranha. O Ministério de Relações Exteriores de Pequim negou que a reunião entre Xi Jinping e o premiê dinamarquês tivesse sido marcada. Mas, na semana passada, o ministério tinha convidado a imprensa estrangeira para uma sessão de fotos com os dois líderes.

Somando-se às teorias de conspiração, o equivalente chinês do Twitter, o site Weibo, proibiu buscas para o termo "dor nas costas".

Numa aparente tentativa de desfazer os temores sobre a saúde de Xi, um jornal estampou ontem uma foto dele discursando para os alunos na abertura do semestre de outono da Escola do Partido Central. No entanto, a foto e o discurso eram de 1.° de setembro.

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