REUTERS/Ronen Zvulun
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Suprema Corte de Israel oferece acordo a palestinos que enfrentam despejo para evitar novo conflito

Medida pede que quatro famílias reconheçam os colonos judeus como os proprietários legais do terreno no bairro de Sheik Jarrah em troca de um status de residência especial que os protegeria do despejo por um número não especificado de anos

Shira Rubin, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 17h00

TEL-AVIV - A Suprema Corte de Israel ofereceu um acordo nesta segunda-feira, 2, para atrasar o despejo de quatro famílias palestinas de um bairro em Jerusalém Oriental, caso que foi o ponto de origem da mais recente crise de violência israelense-palestino na Faixa de Gaza.

O acordo pede que as quatro famílias reconhecessem os colonos judeus de extrema direita que buscam seu despejo como os proprietários legais do terreno em que estão, em troca de um status de residência especial que os protegeria do despejo por um número não especificado de anos. As famílias, algumas das quais inicialmente disseram ter rejeitado a oferta, devem dar uma resposta formal dentro de uma semana, de acordo com a ata da audiência.

Em maio, confrontos no bairro majoritariamente palestino de Sheikh Jarrah, que os colonos judeus chamam de Nahalat Shimon, entre policiais israelenses armados com balas de borracha e palestinos que atiravam pedras precederam manifestações maiores e mais violentas em Jerusalém. 

A escalada do conflito contribuiu levou a uma operação israelense de 11 dias contra militantes de Gaza, combates que acabaram com 12 pessoas mortas em Israel e pelo menos 250 palestinos mortos na Faixa de Gaza. Um frágil cessar-fogo mediado pelo Egito está em vigor desde 21 de maio, embora tanto o Hamas, o grupo radical islâmico que controla Gaza, quanto Israel tenham alertado repetidamente sobre a possibilidade de outro surto.

Na quinta-feira da semana passada, as famílias enviaram documentos aos tribunais mostrando que antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o governo jordaniano tentou transferir a propriedade dos terrenos contestados de Sheikh Jarrah para os palestinos. Até a tarde desta segunda, os tribunais não haviam feito referência a esses documentos, que a defesa planejava usar como base legal para provar o direito de propriedade.

A situação dessas quatro famílias faz parte da história de cerca de 70 residentes palestinos do bairro que conecta Jerusalém Oriental com a Cidade Antiga, uma disputa que se arrasta por várias décadas. Enfrentando a pressão de ativistas de direitos humanos, juízes israelenses têm intervindo no que os colonos judeus dizem ser uma disputa imobiliária e no que os residentes palestinos chamam de uma tentativa de “judaizar” a contestada cidade de Jerusalém e realizar uma limpeza étnica. Tanto israelenses quanto palestinos reverenciam os locais sagrados dentro das muralhas da Cidade Antiga de Jerusalém e reivindicam Jerusalém como sua capital.

Histórico 

Analistas dizem que uma pequena comunidade judaica existiu por milhares de anos em Sheikh Jarrah ao redor do túmulo de Shimon Hatzadik, um antigo sacerdote judeu, mas fugiu da área quando a cidade foi dividida em 1948 entre Israel e Jordânia. Em 1956, a Jordânia e as Nações Unidas construíram 28 pequenas casas em Sheikh Jarrah, a leste da Linha Verde que marca a fronteira de fato antes de 1967, para abrigar famílias de refugiados palestinos. Com o tempo, outros se juntaram a eles. Os palestinos pagaram aluguel a um “guardião geral”, primeiro quando o território estava sob poder da Jordânia, e em seguida, sob o poder de Israel após a conquista da terra em 1967.

Aviv Tatarsky, pesquisador da ONG israelense Ir Amim, que acompanha informalmente os residentes de Sheikh Jarrah durante todo o processo legal, disse que o caso de despejo contra as quatro famílias palestinas está entre os exemplos mais recentes de uma onda de despejos contra palestinos no leste de Jerusalém. A tendência ganhou impulso durante as administrações do presidente Donald Trump e do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, os quais direta ou indiretamente forneceram apoio a organizações de assentamentos judaicos, disse Tatarsky.

"Apesar do fato de Israel ter um novo governo, haver uma nova administração americana e a atmosfera não ser a mesma de um ano atrás”, pondera Tatarsky, os grupos de colonos israelenses "ainda sentem que têm luz verde para usar os tribunais israelenses para despejar palestinos de Jerusalém Oriental".

Chaim Silberstein, presidente do grupo de defesa dos colonos Keep Jerusalem, que trabalha para substituir residentes palestinos por colonos judeus em Jerusalém Oriental, disse estar "otimista" com a decisão dos tribunais israelenses. "Continuo esperançoso de que a justiça será feita, de que os judeus que compraram propriedades legalmente, que ofereceram soluções aos posseiros ao longo dos anos e foram rejeitados, assim como hoje, recebam justiça", disse Silberstein. "Estabelecer uma forte maioria judaica" em bairros como Sheikh Jarrah, acrescentou ele, é "importante para o bem da democracia e da pátria judaica".

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