Marvel Studios
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Supremacistas brancos adotam Pantera Negra como símbolo de causa étnica

Especialistas dizem que o caso marca uma nova estratégia online dos nacionalistas brancos: em vez de se esquivarem de um fenômeno cultural que entra em conflito com sua ideologia, eles tentam subvertê-lo

Craig Timberg, Drew Harwell e Steven Zeitchick / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 05h00

Supremacistas brancos estão usando o filme Pantera Negra para defender que Estados-nação devem ser organizados etnicamente. Uma imagem do personagem que circula em sites de extrema de direita – a do rei super-humano de Wakanda, nação imaginária da África – traz o Pantera Negra usando um chapéu com a inscrição “Tornar Wakanda grande de novo”, uma menção à campanha de Donald Trump, “Tornar a América grande de novo”.

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A imagem foi postada pela primeira vez em junho, meses antes do lançamento do filme, com o título “Pantera Negra é de ultradireita”, uma referência ao movimento racista, antissemita e sexista que defende um Estado só de brancos. Eles afirmam que o super-herói negro é contra a imigração, a diversidade, a democracia e defende um nacionalismo étnico, uma descrição falsa dos temas centrais do filme, segundo pesquisadores do Data & Society, de Nova York. Segundo eles, o filme utiliza a ficção científica e o “afro-futurismo” uma exploração temática da história africana e afro-americana para debater questões da vida real ligadas à cultura, raça e política.

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Mensagens enganosas similares também têm surgido no YouTube, no Twitter e na 4chan, plataforma anônima de mensagens online onde ativistas políticos de extrema-direita trocam idéias e planejam campanhas de desinformação, como os esforços recentes para descrever como embuste o massacre em uma escola em Parkland, Massachusetts, no mês passado. Os pesquisadores também citaram atividades dos nacionalistas brancos com relação à Pantera Negra no website de classificação de filmes Rotten Tomatoes.

Segundo os pesquisadores, o caso marca uma nova estratégia online dos nacionalistas brancos. Em vez de se esquivarem de um fenômeno cultural que entra em conflito com sua ideologia, eles tentam subvertê-lo, esperando recrutar novos seguidores e propagar suas ideias. A campanha também mostra como esses grupos disseminam desinformação, transformam referências culturais em ideologia de ódio e ideias racistas.

“Eles sabem muito bem usar a mídia social e sabem que se fizerem uma cobertura da Pantera Negra o filme vai aparecer nos resultados de busca quando as pessoas forem à Internet para saber mais sobre o filme”, disse Becca Lewis, uma das pesquisadoras do Data & Society. “Eles tentam transformar o nacionalismo branco em política de identidade dos brancos. E basicamente estão tentando cooptar sua política de identidade”.

A pesquisa revela os esforços dos conservadores para descrever o Pantera Negra como uma figura “antibrancos” em razão de o elenco ser formado por negros e de o filme exaltar a identidade africana. 

O Pantera Negra e outros personagens também estão envolvidos com os EUA, onde parte do filme se desenvolve. Mas a maneira tradicional de retratar os africanos é invertida. Eles não necessitam da ajuda dos ocidentais brancos e ricos. Ao contrário, o super-herói e seu povo levam tecnologia avançada para um mundo que necessita muito disso tudo. Um dos poucos personagens brancos do filme, um oficial da CIA, é retratado como uma pessoa bem-intencionada, mas ineficaz.

Para Malkia Cyril, director do Center for Media Justice, grupo sem fins lucrativos com sede em Oakland, Califórnia, “a afirmação de que o herói de Pantera Negra, o rei T’Challa, representa as crenças da direita alternativa – isolacionismo, anti-globalismo e homogeneidade racial – é um absurdo que só pode partir de supremacistas brancos ou pessoas que realmente não compreendem a relação entre africanos na diáspora e os do continente”.

A pesquisa também revela os esforços generalizados de comentaristas conservadores para descrever o Pantera Negra como uma figura “anti-branca”, pelo fato de o elenco ser formado principalmente por atores negros e o filme exaltar a identidade e herança africanas. O filme, baseado numa série de histórias em quadrinhos, tem por foco a luta do super-herói para proteger seu reino contra ataques, ao mesmo tempo que se debate com questões morais, como compartilhar a tecnologia e as riquezas naturais de Wakanda com o mundo exterior.

Os nacionalistas brancos, buscando manipular o Pantera Negra, criaram hashtags no Twitter: #Wakandaisntreal e #OpenBordersforWakanda”. Outros têm ressaltado o número de judeus no elenco para fortalecer o argumento de que a mídia é controlada pela cabala judaica.

Uma personalidade do YouTube afirma que a ultradireita deve não apenas apoiar o filme, mas torná-lo viral nas redes sociais e comparecer em massa aos cinemas, mostrando solidariedade com o herói e seus valores. “Isso deve confundir, desorientar e desconcertar a extrema-esquerda”, afirmou o youtuber.

Em outras ocasiões, muitos conservadores se aproveitaram de um fenômeno cultural para denunciar conspirações liberais. Em dezembro, vários extremistas acusaram Star Wars, o Último Jedi de defender teses feministas.

No geral, Pantera Negra vem sendo elogiado como o primeiro filme de super-herói com um elenco negro e tem despertado entusiasmo nos EUA e na África. No entanto, o filme atrai também um enorme público além desses grupos, com um faturamento de mais de US$ 1,2 bilhão na semana de estreia.

Os criadores do filme se empenharam para incorporar elementos da cultura africana no filme, incluindo tecidos autênticos e outros elementos do guarda-roupa do continente africano na produção. Pantera Negra surgiu pela primeira vez nos quadrinhos da Marvel em 1966, integrando o Quarteto Fantástico, e depois se tornou o herói em outras histórias.

“Os Wakandans são isolacionistas porque não querem se tornar refugiados”, disse Kinjal Dave, um dos pesquisadores da Data & Society. “A extrema-direita é isolacionista porque não quer aceitar refugiados”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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