'Surpresa de outubro'

Em Jerusalém e Tel-Aviv, fala-se muito da "surpresa de outubro", que seria um possível ataque aéreo de Israel contra instalações nucleares do Irã, entre as quais a de Fordo, enterrada em uma montanha sob 90 metros de granito perto da cidade religiosa xiita de Qom. É lá que os iranianos estariam fabricando em segredo a matéria físsil necessária para uma bomba atômica.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2012 | 03h10

Por que o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e seus falcões se detiveram na data de outubro? É que as eleições americanas ocorrem em 6 de novembro. Os americanos seriam, então, obrigados a se solidarizar com Israel e obrigados a dar-lhe assistência.

A tática parece ser, portanto, de "torcer o braço" dos americanos, sobretudo se quem estiver cotado para vencer for o presidente Barack Obama, a quem Netanyahu detesta.

A desconfiança que Israel tem de Obama se compreende. Há dois anos, o presidente dos EUA não para de recomendar paciência e resignação aos israelenses, porque ele tem pavor de uma operação militar que faria o preço do petróleo disparar. Netanyahu reza para Obama ser derrotado em novembro. Vários membros da extrema direita e até da direita israelense veem em Obama um "cúmplice dos árabes", um "frouxo" e um "medroso".

Isolamento. Obama tentou dissipar essas ressalvas enviando a Tel-Aviv numerosos figurões políticos americanos, entre os quais a secretária de Estado, Hillary Clinton. No entanto, o mau humor de Israel perdura - apenas nos falcões, porque uma parte da opinião pública do país, acompanhando o presidente Shimon Peres e vários generais israelenses, é hostil a esses ataques ao Irã.

Seja como for, rumores sérios que emanam da Direção Geral da Inteligência Militar, em Paris, sugerem que, na verdade, a estratégia de Obama é menos simples, menos clara do que parece. Segundo essas fontes, Obama estaria mantendo um duplo discurso.

De um lado, a Casa Branca não esconde sua hostilidade com relação a uma operação militar dos israelenses contra as instalações iranianas. Ao mesmo tempo, e secretamente, porém, ela forneceria ao governo de Netanyahu a ajuda técnica necessária para realizar eventuais bombardeios.

Segundo as mesmas fontes, os Estados Unidos entregaram a Israel bombas GBU-28 de 2,3 toneladas capazes de atingir as usinas iranianas subterrâneas e de perfurar até mesmo os seis metros de concreto que lhes conferem uma proteção suplementar.

Outra preocupação de Jerusalém: um ataque como esse levaria os aviões israelenses a 2 mil quilômetros de suas bases. Uma consequência disso é que eles teriam de ser reabastecidos em voo por aviões de reabastecimento. Ora, Israel só possui quatro velhos KC-707 americanos. Segundo o jornal francês Le Canard Enchaîné, Obama teria autorizado o leasing de vários KC-135 capazes de reabastecer em voo os aparelhos israelenses.

Rumores. No entanto, de acordo com as últimas notícias transmitidas pela inteligência militar francesa, "a surpresa de outubro" não ocorrerá. Os israelenses teriam garantido a Washington que não atacariam em outubro, conforme os rumores que circulam há alguns dias.

O governo israelense teria prometido não prejudicar a eleição americana de 6 de novembro. Esse seria, portanto, o primeiro tema grande e espinhoso que o futuro presidente americano teria de examinar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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