Gregg Vigliotti/The New York Times
Gregg Vigliotti/The New York Times

Surpresa em investigação: mafioso nova-iorquino foi morto a mando do próprio filho

Inicialmente, autoridades suspeitavam que Sylvester Zottola, de 71 anos, tinha sido executado por vingança ou desentendimento com outros grupos; depoimento de testemunha, no entanto, apontou que seu filho Anthony foi o mandante do crime

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2019 | 15h09

WASHINGTON - Em outubro de 2018, diante de centenas de pessoas na igreja Santa Teresa do Menino Jesus no Bronx, em Nova York, Anthony Zottola fez uma promessa solene ao seu falecido pai: jamais deixaria seu irmão, sua irmã ou sua mãe desamparados.

Cinco dias antes, Sylvester Zottola, de 71 anos, fora executado a sangue frio enquanto esperava um café em um drive-through do McDonald’s com 13 tiros na região dos ombros, 1 no peito e outro na cabeça.

O assassinato, em 4 de outubro de 2018, selou um ano terrível para sua família. Sylvester já havia sobrevivido a um ataque em dezembro de 2017, quando intrusos invadiram sua casa, o esfaquearam e cortaram sua garganta. Em julho de 2018, outro filho, Salvatore, foi baleado várias vezes, mas também sobreviveu.

O pano de fundo para todo esse derramamento de sangue parecia óbvia: Sylvester Zottola tinha laços profundos com a máfia. A motivação para essa vingança, no entanto, não estava clara - especulava-se que podia ser resultado de um antigo desentendimento com a família Bonanno ou com algum novo grupo albanês - mas a violência parecia um "eco do passado mafioso", escreveu o New York Times.

Agora, no entanto, depois que agentes federais analisaram uma série de pistas, como textos codificados e rastros de transferências de dinheiro, há uma nova teoria e um mandante por trás do caso: Anthony Zottola.

O filho de Sylvester pagou membros da gangue Bloods com apelidos como "Taleban" e "Scary" (assustador, em tradução livre), para assassinar seu pai e seu irmão, alegam promotores federais. Nas mensagens, os conspiradores até falam em “filmar” uma “cena final” - com Sylvester como “o ator” e o assassino como “o diretor”.

Nesta semana, os promotores acusaram Anthony e outras nove pessoas de planejarem o assassinato de Sylvester e tentarem executar Salvatore. Eles não disseram, no entanto, qual seria a motivação por trás do caso.

"Aparentemente, o sr. Zotolla não gosta dos outros membros de sua família, a tal ponto que ele supostamente contratou membros de uma gangue para assassinar seu pai e seu irmão", disse o diretor-assistente interino do FBI, William Sweeney Jr. "Depois de várias tentativas fracassadas contra a vida de ambos os homens, infelizmente seu pai não sobreviveu ao último ataque."

Uma vez mafioso...

Antes de ser morto, Sylvester Zottola teve uma longa carreira com contato próximo de  alguns dos mais infames mafiosos de Nova York. Seu trabalho era consertar máquinas eletrônicas de aposta em centros de Nova Jersey ligados às famílias criminosas Bonanno e Lucchese, informou o Times.

Também conhecido como “Sally Daz”, de acordo com documentos judiciais, Sylvester supostamente cresceu com Vincent Basciano, ou “Vinny Gorgeous”, que liderou brevemente a família Bonanno antes de ser condenado à prisão perpétua. Salvatore se juntou aos negócios da família no início dos anos 90.

Mas, nos últimos anos, o poder da máfia diminuiu após uma série de casos de extorsão, confrontos sangrentos e o surgimento de novos players poderosos da Rússia e da Albânia. Os dias de capos famosos nas esquinas da Little Italy são coisa do passado. E a empresa de manutenção de máquinas de Zottola está inativa há anos, segundo o NYT.

A virada no caso

O rumo das investigações do assassinato de Sylvester mudou completamente quando um delator fez uma revelação que abriu um novo caminho para a equipe do FBI. Bushawn Shelton, de 34 anos, um líder dos Bloods conhecido como "Shelz", ofereceu dinheiro para essa testemunha ajudar no plano de assassinato contra Sylvester, segundo documentos do tribunal federal. Quando os agentes invadiram o apartamento de Shelton no Brooklyn, foram encontrados US$ 45 mil em dinheiro e armas de fogo.

Shelton foi acusado em outubro de conexão com o assassinato de Sylvester e a tentativa de assassinato de Salvatore. Na época, os investigadores não revelaram quem o teria contratado para cometer tais crimes. Agora, no entanto, eles garantem que o mandante foi Anthony Zottola. 

Shelton supostamente repassou a ordem dos assassinatos para membros de sua gangue. Pouco depois de Sylvester ser morto a tiros, um dos associados de Shelton mandou uma mensagem para ele reportando sucesso na missão: “Feito”, escrevreu. Shelton então mandou uma mensagem a Anthony Zottola para perguntar “Podemos festejar hoje ou?”

Depois, quando eles definiram uma data para se encontrar, Zottola disse a Shelton: "Terei as caixas de água em um ou dois dias", uma mensagem cifrada que, segundo os investigadores, se refere ao pagamento pelo assassinato. E, de fato, eles encontraram fotos no telefone de Shelton de uma caixa cheia de água engarrafada e US$ 200 mil em dinheiro.

Três dias depois do assassinato, Anthony enviou uma nova mensagem para Shelton: “Você bebeu a água. Estava certa?”, escreveu. O assassino de aluguel, então, respondeu: "Definitivamente estava tudo certo, obrigado. Pude 'irrigar' as plantas e me livrar de algumas delas."

Os dez homens são acusados de uma série de acusações criminais, incluindo conspiração por assassinato, uso e posse ilegal de arma de fogo, e assassinato com uso de uma arma de fogo. Ainda não foi definida a data em que eles serão julgados. / THE WASHINGTON POST

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