Andres Martinez Casares/Efe
Andres Martinez Casares/Efe

Surto de cólera mata 140 e deixa Haiti em alerta

País devastado por guerra civil e pelo intenso terremoto do início do ano tenta conter doença que já deixou mais de mil infectados

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Um surto de diarreia - classificado pelas autoridades locais como "epidemia de cólera, do tipo 1, o mais grave" - matou 140 pessoas e deixou 1.526 infectados na pior crise sanitária do Haiti desde o terremoto que devastou o país em 12 de janeiro. O tremor deixou 300 mil pessoas mortas e 1,5 milhão de desabrigados.

As precárias condições de higiene nos milhares de campos de desabrigados podem fazer com que a doença se espalhe pelo país mais pobre do Ocidente, elevando rapidamente o número de mortos. "O desafio é manter a doença confinada onde ela começou, na zona rural, longe do centro urbano superpopuloso da capital", disse ao Estado Barbara Maccagno, da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Porto Príncipe.

As primeira vítimas morreram apenas três horas depois de terem sido infectadas. E as autoridades não têm meios de conter completamente o surto num país onde a maior parte da água disponível é imprópria para consumo e os alimentos são vendidos nas ruas, sem as mínimas condições de higiene.

A principal suspeita é a de que o Rio Artbonite, que abastece a capital, esteja espalhando a bactéria causadora da doença, que não é transmitida por meio do contato entre as pessoas, mas pelo consumo de água e alimentos contaminados. Além de Artbonite, o Departamento de Mirebalais também teve registros.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou especialistas sanitários ao Haiti para investigar as causas e os meios de conter o surto. A organização lembrou que o país não registrava um caso de cólera havia mais de cem anos.

"A população está num estado de fragilidade e a situação é séria", alertou a chefe do serviço global de controle de cólera da OMS, Claire-Lise Chaignat. O grupo MSF e a Cruz Vermelha ainda relutam em classificar o ocorrido como surto de cólera. Mesmo assim, o governo da República Dominicana, vizinha do Haiti na Ilha de Hispaniola, ativou seus serviços de vigilância epidemiológica para evitar a propagação da doença.

Militares. As tropas brasileiras que fazem parte da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) não registraram nenhum caso da doença entre seus militares, de acordo com o porta-voz do batalhão, coronel Valdir Campelo. Mas o batalhão argentino, que é responsável pela área localizada no local de origem do surto, recusou-se a dar informações sobre registros de casos entre seus soldados.

O ministro da Saúde do Haiti, Alex Larsen, disse que as primeiras medidas de controle da doença devem custar US$ 800 mil. "A cólera pode matar rapidamente, mas também pode ser curada rapidamente", disse o ministro. Segundo ele, não faltam remédios para os pacientes.

PARA LEMBRAR

Epidemias já se espalharam pelo mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou sete epidemias de cólera desde 1817, com milhares de mortos em todo o mundo. Só na Índia, foram 15 milhões de mortos, num dos surtos mais graves da História, em 1860. A doença - caracterizada por uma infecção intestinal aguda causada pela ingestão de alimentos ou de água contaminada pela bactéria Vibrio cholerae - é frequentemente associada a baixos índices de desenvolvimento humano e condições precárias de higiene.

Além de uma diarreia forte, mas indolor, a cólera também provoca vômitos e mata a pessoa infectada por desidratação. Calcula-se que 80% dos casos tenham sintomas moderados e dificilmente sejam percebidos como algo mais que uma diarreia aguda.

Os surtos mais recentes de cólera estão quase todos concentrados no continente africano atualmente. Em Moçambique, a doença é considerada endêmica e no Zimbábue, onde um foco foi localizado em agosto de 2008, a doença já matou mais de 4 mil pessoas. / J.P.C.

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