Surto de cólera no Zimbábue é o pior de sua história, diz ONU

Doença amplia drama no país; impasse político e crise econômica prejudicam ação contra epidemia

Agências internacionais,

05 de dezembro de 2008 | 12h21

As agências humanitárias das Nações Unidas definiram nesta sexta-feira, 5, o surto de cólera no Zimbábue como o pior da história do país africano. "Estamos diante de uma epidemia sem precedentes", alertou a porta-voz de Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Veronique Taveau. "O surto é muito pior que o último grave que o de 1992. No Zimbábue há, a cada ano, um surto de cólera, mas nunca tínhamos visto destas dimensões", afirmou Fadela Chaib, porta-voz de Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo os últimos dados, há 575 mortos, entre 12,7 mil contaminados, "mas é preciso levar em conta que estamos falando dos casos que conhecemos, ou seja, o número de doentes pode ser muito maior, o que nos dá uma idéia da amplitude do problema", ressaltou Elisabeth Byrs, porta-voz do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). A ajuda da comunidade internacional ao Zimbábue tem sido restrita em função do impasse político que o país vive desde as eleições presidenciais de julho. Acusado de fraude eleitoral e abuso de poder, o presidente Robert Mugabe - no poder há 28 anos - recusa-se a negociar com a oposição, liderada por Morgan Tsvangirai. Enquanto isso, a população sofre com a hiperinflação, falta de alimentos e um quadro de caos social marcado por protestos e greves. Segundo dados oficiais, a inflação anual é de 231.000.000% ao ano. Economistas independentes, porém, afirmam que a cifra pode chegar a um trilhão por cento. Na quinta, o Banco Central lançou a nota de 100 milhões de dólares zimbabuanos. A ajuda humanitária se dividiu em duas frentes. De um lado, a OMS tenta controlar a epidemia, e do outro, a Unicef se encarrega do grave problema da distribuição de água potável. As agências tentam revisar os dados para poder aumentar os pedidos de fundos para o Zimbábue, algo que por enquanto é difícil, dadas as circunstâncias mais do que excepcionais que atravessa o país. De fato, as agências não contam com dados confiáveis da maioria das regiões deste país no sul da África, além da capital e das cidades grandes. "Um dos principais problemas é que não contamos com pessoal para cuidados sanitários, dado que muitos não vão a trabalhar porque o governo não paga seu salário, e muitos outros se mudam a outros países", explicou Byrs. Com salários atrasados, cerca de dez soldados iniciaram distúrbios na quinta nas ruas da capital Harare e acabaram presos. Na quarta-feira, médicos e enfermeiras também realizaram manifestações por falta de pagamento. Além disso, o sistema sanitário e hospitalar tem deficiências e necessita dos elementos mais básicos para atender aos pacientes. Segundo explicou Taveau à rede de fornecimento de água é "tão atrasada" que, de fato, ajuda a epidemia a se expandir. A Unicef gastou só na semana passada US$ 2 milhões em fornecimento de água e instalação de infra-estrutura sanitária. "Isto nos dá uma idéia do problema", afirmou a porta-voz do Unicef. "E falamos do cólera porque ele está arrasando ao país, mas não devemos nos esquecer das outras doenças", lembrou Chaib, que destacou especialmente a malária e a Aids. Ao todo, 15% da população adulta no Zimbábue tem o vírus HIV e, entre eles, somente 15% têm acesso a tratamento. Além disso, uma em cada cinco crianças é órfã por causa da Aids e 50% das crianças que morrem no Zimbábue não chegam a completar os cinco anos. A expectativa de vida é uma das mais baixas do mundo, de 42 anos. A África do Sul está enviando mais médicos militares para sua fronteira norte, a fim de tratar zimbabuanos vítimas de cólera que fogem do país em busca de ajuda. O anúncio do reforço foi feito pelo governo sul-africano nesta sexta-feira. 

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