Manuel Silvestri/Reuters
Manuel Silvestri/Reuters

Surto provoca morte em massa de idosos abandonados em asilos na Itália 

Um dos países mais afetados pela pandemia tem 300 mil pessoas espalhadas por 7 mil casas de refúgio; algumas ficaram sem funcionários após a quarentena, outras foram obrigadas a receber infectados e muitas são investigadas por negligência 

Janaina Cesar / Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 04h00

VENEZA - A Itália é um dos países mais afetados pela pandemia de coronavírus. Ontem, o governo italiano registrava quase 150 mil infectados e 19 mil mortos. Mas, dentro da tragédia, há um trauma ainda mais difícil de ignorar: 300 mil idosos espalhados em 7 mil asilos, a maioria abandonados pelas autoridades. Desde que as contaminações começaram, é quase impossível fazer as contas de quantos morreram nesses refúgios.

Segundo o Ministério da Saúde da Itália, a idade média dos infectados no país é de 78 anos. Cerca 95% das mortes até o momento são de pessoas com mais de 60 anos. A idade média dos idosos que vivem em casas de repouso é de 85 anos e 60% deles, segundo dados do Instituto Superior de Saúde (ISS), têm doenças preexistentes. Ou seja, desde o início, os asilos italianos eram uma bomba-relógio pronta para explodir.

A lista de vítimas e doentes de covid-19 nos abrigos para idosos cresce todos os dias e não livra a cara de nenhuma região da Itália. Na Fundação Santa Chiara, em Lodi, morreram 38 idosos. No asilo Borromea, em Mediglia, 52. No Centro de Idosos, em Monselice, foram 8. Na casa San Giuseppe, em Grugliasco, perto de Turim, outros 30.

Em Ivrea, também perto de Turim, o Ministério Público abriu um inquérito para investigar as mortes em duas casas de repouso nas pequenas cidades de Marcorengo, onde morreram 12, e em Bosconero, que registrou 4 mortes. Dos 12, apenas 1 era positivo para covid-19.

Mas esse não é o único caso denunciado. Em Milão, o asilo Pio Alberto Trivulzio (PAT), famoso por ter sido alvo da Operação Mãos Limpas, voltou a ser protagonista de um escândalo nacional. O local está sendo investigado por Gherardo Colombo, o mesmo procurador responsável pela cruzada anticorrupção dos anos 90. O centro é acusado de omissão criminosa diante da morte de dezenas de idosos por coronavírus. 

A lista de despautérios é longa. Em Soleto, na Província de Lecce, 80 idosos do asilo La Fontanella ficaram dois dias sem comer e sem receber tratamento médico, porque todo o pessoal da estrutura havia entrado em quarentena. Como resultado, 5 idosos morreram e 55 estão infectados. Os parentes denunciaram o abrigo e o Ministério Público está investigando. 

A Justiça também investiga a casa de repouso Domus Aurea, em Chiaravalle Centrale, na Calábria, onde morreram sete idosos por coronavírus em apenas 24 horas. A situação é tão grave que, no dia 24 de março, o ISS publicou um relatório em conjunto com o Comitê Técnico Científico, com informações de 236 asilos. 

No documento, foi constatado que 1.845 pessoas haviam morrido nesses abrigos, mas apenas 57 mortes haviam sido catalogadas por coronavírus e outras 666 haviam sintomas semelhantes aos de gripe. “Os abrigos são uma área cinzenta, onde a intervenção é complicada. Existem disparidades de todos os tipos”, disse Roberto Bernabei, geriatra do Comitê Técnico Científico.

Muitas vezes, a insensatez veio de políticos como o governador da Lombardia, Attilio Fontana, que emitiu uma resolução, no dia 8 de março, solicitando que os abrigos de idosos da região recebessem pacientes com coronavírus. 

“Pedir para recebermos pacientes com os sintomas de covid-19 foi como jogar gasolina na fogueira. Relemos a decisão do conselho regional duas vezes, e não queríamos acreditar que um pedido tão louco pudesse chegar da Lombardia”, disse ao Estado Luca Degani, presidente da Uneba, associação comercial que reúne cerca de 400 casas de repouso lombardas. “No fim, a resolução não foi aplicada, pelo menos nas nossas estruturas. Mas só o fato de o governo ter pensado em algo do gênero, significa que os asilos foram abandonados.”

Famílias criticam desleixo em casas de repouso

Em meio a revolta dos parentes de idosos que morreram em asilos na Itália, uma queixa é assustadoramente comum: a falta de transparência da direção das casas de repouso. “Criaram regras para prevenir o vírus, mas esqueceram os idosos nos asilos. Diante dessa epidemia, deveriam ter tido a mesma atenção que foi dada aos hospitais”, disse Annunziata Castore, cuja mãe de 79 anos, vítima de uma doença rara que paralisa o corpo, está no asilo San Giuseppe, em Grugliasco, desde agosto.

“A direção omitiu coisas no começo da pandemia, como o fato de que um dos dependentes estava infectado”, disse Annunziata ao Estado. Ela está revoltada. Após os primeiros casos positivos em centros de atendimento, parentes foram proibidos de visitar os idosos. Após um mês sem ver a mãe, Annunziata foi visitá-la no dia 21 de março. Foram menos de 10 minutos dentro do asilo, mas o suficiente para ligar o sinal de alerta para a situação dentro do lugar.

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“Foi uma cena de filme de terror. Às 15h30, quando entrei, me deparei com a médica responsável pelo asilo e a sua preocupação era ver se eu usava máscara e luvas. Mas minha temperatura não foi medida. Ao chegar no andar onde minha mãe estava, percebi o tamanho do problema”, contou.

“Quando saí do elevador, dei de cara com um cadáver coberto com um lençol branco. Minha mãe era única que continuava a andar com sua cadeira de rodas pelos corredores. Achei estranho e perguntei onde estavam os outros e me disseram que estavam todos doentes.”

Segundo Annunziata, a médica resolveu desabafar, tirando o peso da tragédia dos ombros. Faltava material de proteção e os profissionais vinham usando as mesmas luvas e máscara há uma semana. “Foi quando percebi que aquelas luvas usadas para manusear o corpo no corredor seriam usadas para tocar o corpo da minha mãe, para tirá-la da cadeira de rodas e colocá-la na cama. Entrei em pânico”, disse a italiana, que ligou para a polícia e denunciou o caso. Naquela semana, seis pessoas morreram no asilo.

Em seguida, Annunziata e parentes de outros pacientes não puderam mais entrar no asilo. Por telefone, recebiam a informação de que estava tudo bem. Mas não estava. Um dia, o vizinho do asilo ligou para denunciar que vários caixões estavam saindo de lá, foi quando descobriram que 21 idosos haviam morrido sem que ninguém avisasse nada. 

Os parentes, desesperados, foram ao asilo para saber quem havia morrido. “Algumas pessoas chegaram e se depararam com o caixão lacrado, não puderam nem mesmo ver o semblante da mãe que a doença havia levado.”

Um grupo de 20 parentes fez um boletim de ocorrência. Agora, a mãe de Annunziata está muito doente. “Ela está em isolamento. Sei que fizeram o teste e o resultado deve chegar em poucos dias. Mas, desde o dia 2, ela precisa de oxigênio para respirar. Não posso levá-la para casa. Existe a possibilidade de levá-la para uma UTI, mas os hospitais estão lotados. Que alternativas eu tenho?”, questiona.

A situação é dramática não só para os parentes de idosos, mas também para os profissionais de saúde que trabalham nos asilos. Segundo a União Europeia das Cooperativas, “a situação é grave e nos obriga a trabalhar em condições extremas em razão da falta de máscaras e roupas de proteção. Na guerra contra o coronavírus, é essencial que os profissionais estejam equipados”. 

Profissionais de saúde se tornam vítimas do descaso 

Os profissionais de saúde no país estão sendo afetados pelo abandono dos asilos. Foi o que aconteceu na casa de repouso La Madonnina, em Bassano del Grappa, no Vêneto. O asilo tem uma centena de hóspedes e 70 profissionais de saúde, dos quais 24 estão infectados. Entre os idosos, 5 estão doentes e 2 morreram.

“Trabalho lá há pouco tempo. Havia rumores de pessoas infectadas. Mas, quando assumi o posto, esqueceram de me avisar sobre este pequeno detalhe”, disse uma profissional de saúde, que preferiu não ter a identidade revelada. Ela afirma que toda a estrutura foi colocada em quarentena por 48 horas, mas ninguém sabe de onde partiu a ordem. “Primeiro, nos disseram que era decisão da agência sanitária. Depois, que tinha sido do diretor do asilo.”

 

Após os primeiros casos, o asilo criou uma ala destinada ao isolamento, mas isso só ocorreu porque de um grupo de 27 pessoas, 20 estavam com febre. Segundo a profissional, as vítimas que morrem no asilo são levadas para o hospital apenas em casos extremos. “Continuamos a seguir a orientação de deixar a UTI para os mais jovens”, disse.

Segundo ela, os testes deveriam ser realizados a cada 48 horas, “mas faz uma semana que não são feitos”. Os turnos massacrantes podem chegar a 14 horas, porque falta pessoal. “Muitos estão doentes”, afirmou. “Falta equipamento de proteção. As máscaras são improvisadas, as camisas descartáveis não nos protegem e, mesmo assim, limpamos os corpos dos idosos que morreram infectados.” 

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