Thomas SAMSON / AFP
Thomas SAMSON / AFP

Suspeita de assédio por brasileiro leva à queda de chefe da UNAids

Auditoria sobre a denúncia contra Luiz Loures acusou Michel Sidibe de liderar uma cultura de impunidade na instituição

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2018 | 23h15

O diretor-executivo da UNAids, Michel Sidibe, anunciou que deixará o cargo um ano antes do final de seu mandato, em 2020. A informação foi revelada depois de uma semana de tensas negociações em Genebra. O africano indicou que renunciará a seu posto em meados de 2019. 

Responsável pela reposta contra a aids no mundo, a agência da ONU passou a viver uma intensa turbulência desde a revelação de um escândalo de assédio sexual envolvendo seu vice-diretor, o brasileiro Luiz Loures. 

Uma das funcionárias, a sueca Martina Brostom, acusou o brasileiro de ter cometido assédio sexual durante uma viagem da instituição à Ásia em 2015. O brasileiro negou todas as acusações. Mas deixou a instituição meses depois das revelações. 

Uma investigação inicial constatou que não existiam provas suficientes para incriminar Loures. Mas trechos do documento que foram vazados à imprensa revelaram que Sidibe interferiu nas investigações e chegou a propor à suposta vítima um acordo. 

 Sidibe, numa tentativa de salvar sua reputação, ordenou a realização de uma auditoria independente sobre a entidade. Mas, na sexta-feira passada, o resultado da apuração se provou desastrosa para o africano. Em seu informe, a comissão de inquérito o acusou de liderar uma cultura de impunidade na instituição. Para os investigadores, Sidibe deveria renunciar.  

 Eles ainda acusaram a liderança da UNAids de promover um “vácuo de responsabilidade” e de não lidar com casos concretos de assédio sexual. 

 Num primeiro momento, Sidibe anunciou medidas para lidar com a crise. Mas sua atitude foi considerada como “desastrosa” por diversos governos. A Suécia, por exemplo, chegou a anunciar que suspenderia os repasses de US$ 28 milhões para a entidade. Estocolmo é o segundo maior doador da UNAids. 

 Pressionado, Sidibe indicou que partirá em junho. Num comunicado emitido nesta quinta-feira, a UNAids não faz nenhuma referência ao inquérito e apenas indica que sua saída tem como objetivo “garantir uma transição ordenada” na agência da ONU. 

 Nem todos ficaram satisfeitos com a decisão. Paula Donovan, diretora da entidade AIDS-Free World, criticou a forma pela qual Sidibe está deixando a entidade. “Ele não merece sair quando e como ele quer”, atacou. 

 Ela ainda critou a “falta de liderança” por parte do secretário-geral da ONU, António Guterres. “A cultura de impunidade se mantém intacta”, insistiu. “A tolerância zero que a ONU afirma ter com esses casos não é nada mais que um slogan vazio”, completou. 

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