AFP PHOTO / POLICE NATIONALE
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Suspeito de planejar ataques em Paris será interrogado pela Justiça francesa na sexta-feira

Salah Abdeslam é acusado de assassinatos terroristas e permanece em regime de isolamento no presídio de Fleury-Mérogis. Interrogatório pode trazer novas informações para a investigação

O Estado de S. Paulo

19 Maio 2016 | 10h28

PARIS - Seis meses depois dos atentados de extremistas em Paris, Salah Abdeslam, único membro vivo do grupo que planejou os ataques, comparecerá na sexta-feira diante da Justiça francesa para um interrogatório que poderá abrir perspectivas à investigação, se forem confirmadas suas intenções de colaborar.

Fugitivo mais procurado da Europa até ser preso na Bélgica em 18 de março, Abdeslam foi acusado formalmente na França em 27 de abril de assassinatos terroristas, entre outras acusações, e preso em regime de isolamento na penitenciária de Fleury-Mérogis, a sudeste de Paris. O advogado francês Frank Berton anunciou na ocasião a data do interrogatório pelos juízes, ainda que posteriormente tenha avisado que não faria declarações "nem antes e nem depois do interrogatório".

Salah Abdeslam, um pequeno delinquente radicalizado, é o único suspeito ligado diretamente aos atentados de Paris que se encontra nas mãos da Justiça francesa. O grau de envolvimento dos outros dois acusados formalmente na França é considerado menor.

Amigo de Abdelhamid Abaaoud, suposto coordenador dos atentados, Abdeslam desempenhou um papel de primeira ordem nos ataques em 13 de novembro, que deixaram 130 mortos e centenas de feridos. Após os ataques, ele fugiu para a Bélgica.

Abdeslam levou ao lugar os três suicidas que agiram no Stade de France e, antes dos atentados, alugou veículos e casas para servirem de esconderijo na região parisiense.

No meses anteriores aos ataques, aumentou as viagens para transportar membros da rede pela Europa, entre eles Najim Laachraoui, possível técnico em explosivos do grupo, que explodiu as bombas dos atentados em 22 de março em Bruxelas.

Abdeslam tem "vontade de se explicar", segundo seu advogado, e poderia oferecer informações valiosas sobre a elaboração do projeto do grupo radical, como quem o coordenou e os eventuais cúmplices ainda desconhecidos.

Ele poderia também dar informações aos investigadores sobre as ligações entre os atentados de Paris e os de Bruxelas, organizados pela mesma célula ligada à organização extremista Estado Islâmico.

"Os investigadores só tem a ele, que pode contribuir se colaborar, para confirmar elementos ou dar novas pistas", afirma o advogado Gérard Chemla, que defende em torno de 50 vítimas e parentes de vítimas. Mas não se deve esperar "revelações sensacionais", porque "as investigações já têm ido muito longe", relativiza.

Jean Reinhart, outro advogado que auxilia dezenas de vítimas e parentes, não espera que na sexta-feira haja "arrependimento" e "grande sinceridade". "As primeiras declarações estão situadas na negação. Talvez tenha que se dar tempo ao tempo no processo", disse, ressaltando que haverá outros interrogatórios.

As declarações de Sven Mary, advogado de Abdeslam na Bélgica, o descrevem como um "pequeno imbecil", com a "inteligência de um cinzeiro vazio" e "muito mais um seguidor do que um dirigente".

A informação leva a crer que ele tentará, talvez, minimizar o papel do acusado, como aparentemente foi feito diante dos investigadores belgas, aos quais declarou ter "voltado atrás" em 13 de novembro quando havia previsto se explodir com os outros no Stade de France.

Interrogado pelo menos duas vezes na Bélgica, Salah Abdeslam foi apresentado então como um peão às ordens de seu irmão, Brahim Abdeslam, e de Abaaoud, "responsável", segundo ele, pelos assassinatos. Mas mentiu ao afirmar que havia visto Abaaoud apenas uma vez, quando, na verdade, ambos haviam sido parceiros de crimes em Bruxelas.

Nesta investigação, em que participam vários países, cerca de 20 pessoas foram acusadas formalmente, principalmente na Bélgica.

Apesar dos avanços, ainda há questões que continuam sem respostas no que diz respeito à coordenação dos atentados, à escolha dos alvos, ao financiamento e às eventuais falhas no serviços de inteligência. /AFP

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