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Suspeito diz que Nisman ficava com metade de seu salário

Ex-auxiliar de promotor argentino menciona conta conjunta nos EUA; líder do governo acentua ataques: 'um sem-vergonha'

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

19 Março 2015 | 02h01

O técnico em informática Diego Lagomarsino, que trabalhava para Alberto Nisman, afirmou ontem que o promotor encontrado com um tiro na cabeça em 18 de janeiro embolsava metade do salário que lhe pagava. Também disse que mantinham uma conta conjunta nos EUA - na qual estavam a mãe e a irmã de Nisman. Esse dinheiro serviria para pagamentos que o promotor não desejava ver associados a ele, segundo Lagomarsino.

O chefe de gabinete argentino, Aníbal Fernández, qualificou de "sem-vergonha" o promotor, que quatro dias antes de morrer acusou a presidente Cristina Kirchner e parte da cúpula do governo de acobertar iranianos acusados de cometer o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994. "Ele usava (dinheiro público) para sair com meninas e pagar funcionários fantasmas, então ele zombou durante todo esse tempo de 85 vítimas e mais de 300 feridos", acusou.

Desde a morte do promotor, integrantes do governo criticam os resultados de seus dez anos de investigação e tentam desqualificar a denúncia que fez. Nisman garantia ter gravações com provas de que o acordo firmado em 2013 entre Irã e Argentina para que os acusados iranianos fossem ouvidos em Teerã era fachada. O objetivo real seria uma aproximação comercial entre os dois países.

Ontem, fotos de Nisman com modelos e vestindo fantasias que estavam em seu celular foram divulgadas, razão pela qual a juíza Fabiana Palmaghini denunciou o setor de apoio tecnológico da polícia federal. O promotor encarregado de dar continuidade à denúncia de Nisman, Germán Moldes, disse não estar surpreso com "insultos a quem não pode se defender". Sua decisão deve sair hoje.

Em uma manifestação organizada em frente à Suprema Corte para lembrar os dois meses da morte, cem manifestantes pediam justiça e rejeitavam as acusações contra Nisman. "Não se pode jogar lama na imagem de alguém que não pode se defender", disse a enfermeira aposentada Haideé Etchegaray, de 63 anos. "Não me interessa se saía com mulheres ou era gay, isso é privado. Quero saber o que aconteceu com ele e os dados que só ele tinha", disse Haiddé, com um cartaz que dizia "memória, verdade, justiça". Ela chorou durante o ato, que teve discurso do jornalista Nelson Castro, apresentador do canal TN, do Grupo Clarín - que o governo quer desmembrar com a Lei de Mídia.

Enquanto a perícia oficial indica um suicídio, especialistas contratados pela ex-mulher de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, garantem que houve um assassinato e a morte ocorreu 12 horas antes da estimativa inicial - na noite de sábado, 17 de janeiro, e não no dia 18. Lagomarsino afirma ter emprestado naquela noite a arma de onde saiu o disparo que matou Nisman e deixado o condomínio Le Parc às 20 horas. Assim, a perícia independente coloca o técnico em informática como principal suspeito. A ex-mulher de Nisman afirmou à promotora Viviana Fein, investigadora do caso, que a morte estaria relacionada a dinheiro.

Dos 41 mil pesos (R$ 15 mil) que Lagomarsino recebia, ele disse que era obrigado a depositar 21 mil pesos (R$ 7,7 mil) na conta com Nisman. A defesa de Lagomarsino alegou que não deu a informação antes para não comprometer a imagem do promotor, mas decidiu fazê-lo após Sandra mencionar uma relação comercial entre os dois.

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