Tabaré dá à esquerda uruguaia força inédita no Congresso e no Executivo

O presidente eleito do Uruguai, Tabaré Vázquez, atendeu a pacientes ontem em Montevidéu, como se não tivesse garantido na véspera votação presidencial e maioria parlamentar inéditas à esquerda no país. O oncologista, que levou a Frente Ampla à presidência em 2005, venceu o conservador Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, por 53,6% a 41,1%, maior diferença em 70 anos. Ele recebe o cargo de José Mujica em março.

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2014 | 02h00

A votação expressiva dá a Tabaré legitimidade para propor projetos complexos ao assumir e, com um Parlamento que nunca esteve tão à esquerda, os votos para aprová-los. Ele tende a adotar uma linha diferente do antecessor, em cujo mandato avançaram leis que regulamentam aborto, casamento gay e controle estatal sobre a produção e venda de maconha.

Tabaré comprometeu-se a preservar essas normas, mas criticou, por exemplo, o plano de vender a maconha em farmácias, etapa que o governo pretende efetivar até março. Segundo um assessor direto de Tabaré, poderá haver mudança no que ainda não está regulamentado.

Uma hipótese é que a venda em farmácias da droga plantada sob supervisão estatal sofra alteração, mas está garantido o cultivo e comércio em clubes para até 45 sócios, bem como o plantio de até seis pés em casa por usuários registrados.

O sociólogo Agustín Canzani, da Universidade da República, acredita que a lealdade entre Mujica e o sucessor será preservada. "Tabaré afirmou que está disposto a regulamentar até mesmo o uso de outras drogas", disse Canzani ao Estado. Mesmo que quisesse reverter alguma reforma, faltariam votos a Tabaré.

O Movimento por Participação (MPP), grupo ligado à guerrilha dos tupamaros, ao qual pertence Mujica, é o principal da Frente Ampla. Tem 24 dos 50 dos deputados e 6 dos 16 senadores do partido, que pela primeira vez dominará Câmara e Senado - a vitória na eleição presidencial torna o vice um senador.

Na prática, Tabaré tem força inédita para levar adiante projetos da esquerda, mas não para mexer no que fez Mujica. O contrário ocorreu.

O ex-guerrilheiro aprovou a regulamentação do aborto, que Tabaré vetou em seu primeiro mandato. "Nesse caso, os números nos deram razão. A lei reduziu as mortes entre as mulheres", alega a senadora Lucía Topolansky, mulher de Mujica, também do MPP.

Ela assume hoje a presidência em razão de uma viagem de Mujica e do vice Danilo Astori, que será novamente ministro da Economia de Tabaré. Embora o eleito tenha anunciado parte do gabinete, a transição começa dia 11, quando Mujica volta da viagem ao Equador - onde recebe a presidência temporária da Unasul - e ao México.

A possibilidade de Mujica assumir a chancelaria, em razão da popularidade que deu ao país, perdeu força depois de ele dizer que os "sapatos o apertavam". O mais cotado para a função é Rodolfo Nin Novoa, ex-vice de Tabaré.

Perfil. Com fama de descentralizador que exige resultados, Tabaré deve atacar primeiro as áreas de educação e segurança, centro da campanha. Segundo o cientista político Ignacio Zuasnabar, diretor da consultoria Equipos, em 2009, na transição de Tabaré para Mujica, a educação era o principal problema do país para 32% dos uruguaios. A segurança aparecia com 31%.

Com Mujica, a preocupação com esses temas passou para 41% e 36%. O país enfrenta alta evasão no ensino médio e tem 8 homicídios por 100 mil habitantes - número baixo para a América Latina, mas que era de 6 há dois anos.

Ao sair do trabalho ontem, Tabaré disse que chamaria os opositores para idealizar um "governo de diálogo". A oposição manterá Lacalle Pou como líder e anunciou que a união entre Partido Nacional e Colorado será preservada para as eleições municipais de maio.

No domingo, a Frente Ampla venceu em 12 departamentos (Estados), incluindo a capital, enquanto a aliança de direita levou 7. Em relação a 2009, a esquerda avançou na fronteira com o Brasil, tradicionalmente um reduto agropecuário conservador. Uma razão é a aprovação de direitos trabalhistas para peões, garantida por Mujica.

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