Tailandeses suspeitam de participação do rei no golpe

Para muitos na Tailândia, foi um confronto entre dois homens: um primeiro-ministro arrogante e um rei respeitado, que sempre vence.O reverenciado rei da Tailândia, Bhumibol Adulyadej, ainda deve se pronunciar sobre o dramático golpe da noite para o dia que depôs o premiê Thaksin Shinawatra. Mas falar não faz muito o estilo do monarca de 78 anos, que apesar da idade e fragilidade, continua o homem mais poderoso do país. O que ficou registrado é que o golpe foi uma solução militar, liderada pelo chefe do exército, general Sondhi Boonyaratkalin, que afirmou que a ação foi necessária para resolver uma longa crise política e restaurar "a harmonia entre as pessoas". O novo regime colocou a Tailândia sob lei marcial e declarou uma autoridade provisória leal ao monarca. Em declarações nesta quarta-feira, Boonyaratkalin disse que atuará como primeiro-ministro por duas semanas até que um novo líder seja escolhido. Ainda segundo o general, uma constituição provisória para o país deve ser escrita neste meio tempo, e novas eleições serão convocadas para outubro de 2007.Continua incerto, no entanto, qual foi o real papel do rei na deposição do premiê. O palácio alega não estar envolvido nos acontecimentos, mas na quarta-feira o rei aprovou a nomeação de Boonyaratkalin como o chefe do conselho provisório que irá governar o país, de acordo com um anúncio televisionado que dava sua bênção ao golpe. Muitos tailandeses, assim como experts da política e da monarquia, vêem a destituição de Shinawatra como um exemplo do poder do monarca nos bastidores da política - algo que ele tem exercido, de forma esparsa mas efetiva, nas seis décadas do seu reinado. "Se o rei não tivesse concordado, isso nunca teria acontecido", disse Sulak Siwalak, proeminente crítico social e autor de diversos livros sobre o papel da monarquia na Tailândia. Após a consolidação do golpe, o ex-premier tailândes, que estava em Nova York para a 61ª Assembléia Geral da ONU, seguiu para Londres, onde deve pedir exílio."Thaksin não se deu conta de que o rei está no trono há sessenta anos e ele não é bobo. O homem é velho e Thaksin achou que poderia enrolá-lo - foi um jogo perigoso", disse Sulak. "Ele sentiu que poderia menosprezar o rei, e isso é algo que o rei não pode tolerar".Não houve um único fato que levou à deposição de Thaksin, mas uma série da vacilos que fizeram muitos acusá-lo de desafiar a autoridade do rei - ato imperdoável na Tailândia. Thaksin desafiou meses de protestos nas ruas e demandas pela sua renúncia, após denúncias de corrupção, violação de eleições e do aumento de uma insurgência muçulmana no sul do país. Mas aos olhos dos tailandeses e do palácio, o principal defeito do premiê é a sua personalidade. O político se mostrou ambicioso, conservador e teimosos, se recusando a se corrigir quando suas políticas davam errado - em particular no caso de uma incursão militar fortemente armada no sul do país, onde mais de mil e setecentas pessoas morreram nos últimos dois anos. Seus críticos o consideram egocêntrico e arrogante. Ele também é acusado de ter reprimido a mídia do país, que já foi considerada a mais livre da Ásia, e de permitir que seus negócios e amigos políticos ganhassem muito através de políticas corruptas. Alguns dizem que o palácio se enfureceu quando Thaksin aparentemente tentou roubar a cena e os holofotes durante as celebrações de 60 anos do reinado de Bhumibol, quando ele quebrou o protocolo por cumprimentar os monarcas visitantes antes do monarca.Rei budistaO rei poderia ser considerado como oposição a Thaksin. "O rei nitidamente cuida de seus assuntos. Ele é uma pessoa simples. Ele é genuíno e humilde. Ele não usa muito de sua riqueza", disse Paul Handley, autor de uma nova biografia controversa, O rei nunca sorri, que o retrata como um protagonista da política tailandesa nas últimas décadas. Handley disse que o rei também é "teimoso e cabeça-dura, e realmente não aceita críticas sobre a sua perspectiva de como o país deve se desenvolver."Apesar de ser um monarca constitucional com poderes limitados, a maioria do povo o apóia e o reverencia devido à sua dedicação de toda a vida para ajudar os necessitados do país. Visto como uma semidivindade por alguns, o rei passou décadas misturado com os súditos de vilas, onde ele semeou diversos projetos de desenvolvimento. Ele acredita que os tailandeses e seus governantes deveriam aderir aos princípios budistas, de que as pessoas devem viver de forma simples, não se entregar aos excessos, e não descuidar da saúde. O rei raramente entra na esfera política, mas quando o faz, ouve a todos e obedece, no que Thaksin tem uma enorme dificuldade. "Thaksin demonstrou uma falta de atenção aos desejos do rei e do palácio. E mostrou muita independência, o que o palácio viu de forma desfavorável", disse Handley. Texto atualizado às 14h25

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.