Sui Chou/ AFP
Sui Chou/ AFP

Taiwan luta para conter uma invasão de sapos-cururu

Nativo das Américas Central e do Sul, anfíbio já é um problema para ecossistemas de diversos países, como Austrália, Filipinas e EUA

Miriam Berger, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 15h00

O infame sapo-cururu (Rhinella marina) — temido por sua toxicidade e veloz proliferação — está coaxando nos ouvidos de ambientalistas e autoridades de Taiwan, que se apressam para conter uma súbita elevação na presença do invasivo anfíbio na ilha.

Os rechonchudos batráquios são nativos das Américas Central e do Sul. Mas tornaram-se um flagelo em países como Austrália e Filipinas — e também nos Estados americanos da Flórida e do Havaí, onde, há décadas, eles invadem os ecossistemas locais.

A toxicidade desses intrusos representa um perigo particularmente para cachorros que, inadvertidamente, os mordam ou lambam a sua pele, assim como para grandes predadores que tipicamente se alimentam de anfíbios. A Austrália está combatendo um sapo assassino usando a toxina do próprio anfíbio contra ele.

Os primeiros relatos de avistamentos de sapos-cururu selvagens em Taiwan surgiram poucas semanas atrás, em Chaotun, um município da região central da ilha, segundo noticiou a agência France-Presse. Ambientalistas e voluntários, desde então, têm vasculhado a região para encontrar e capturar os verruguentos intrusos, também chamados de sapos-boi.

Até agora, o número de invasores encontrados é relativamente baixo: o Instituto para Pesquisas de Espécies Endêmicas, administrado pelo governo taiwanês, capturou mais de 200 sapos-cururu nas últimas semanas, de acordo com a AFP.

Ainda assim, ambientalistas alertam que uma ação rápida é necessária para evitar uma infestação total.

“Uma operação massiva e ágil de buscas é crucial assim que sapos-cururu são descobertos”, afirmou à AFP Lin Chun-Fu, cientista especializado em anfíbios do instituto administrado pelo governo. “Eles são muito grandes e não possuem nenhum predador natural aqui em Taiwan.”

Em 1935, fazendeiros australianos de cana de açúcar importaram 102 sapos-boi para conter os besouros que atacavam seus cultivos. Décadas depois, a população dos batráquios dessa espécie no continente passou para estimado 1,5 bilhão de indivíduos. (Outras estimativas colocam esse número em cerca de 200 milhões).

Sapos são considerados sinais de boa sorte nas culturas chinesa e taiwanesa, o que complica potenciais esforços de conservacionismo.

Até 2016, sapos-cururu podiam ser importados legalmente para Taiwan como bichos de estimação. Desde então, conservacionistas acreditam que procriadores locais reproduziram a espécie para atender à persistente demanda.

Os sapos-cururu vistos em jardins e quintais poderiam ter escapado de ser descartados por procriadores locais, noticiou a AFP.

Após as notícias da infestação virem a público, agricultores contaram para ambientalistas trabalhando em suas regiões que já haviam percebido a presença dos sapos anteriormente, mas não sabiam como denunciar.

“Agricultores taiwaneses geralmente ignoram os sapos e até consideram positivo encontrá-los, porque consideram que sapos livram a terra de pragas e são símbolo de boa sorte”, afirmou à AFP Yang Yi-Ju, especialista em sapos da Universidade Nacional Dong Hwa. “Nunca lhes ocorreu que se trata de uma espécie invasiva, de uma terra estrangeira.”

Sapos-cururu, particularmente os machos, são conhecidos por agarrar-se a todo tipo de objetos e outras criaturas — incluindo, em um memorável momento fotografado na Austrália, às costas de uma cobra píton — em seu frenesi de acasalamento, noticiou a  Canadian Broadcasting Corporation. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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