"Taleban americano" lutou com árabes financiados por Bin Laden

Numa cama de hospital, sofrendo a dor de um ferimento à bala, o taleban americano John Walker Lindh defendeu os terroristas acusados de destruir as torres do World Trade Center. Ele também disse que serviu com um grupo de lutadores árabes treinados e financiados por Osama bin Laden.Lindh contou sua história numa entrevista concedida em 2 de dezembro a um repórter da CNN, logo depois de ter sido capturado. A entrevista foi transmitida na íntegra pela primeira vez na noite de ontem.Lindh, de San Alselmo, Califórnia, afirmou que os líderes da antiga milícia governista do Afeganistão, o Taleban, organizaram os lutadores em braços armados baseados em grupos étnicos. No começo, Lindh ficou com combatentes talebans do Paquistão, onde ele havia estudado o Islã.Depois ele foi colocado com o grupo de lutadores árabes - o Ansar - que era pago pelo milionário dissidente saudita. Lindh sabe falar árabe."Originalmente eu fiquei com os paquistaneses", disse Lindh. "Eles me mandaram para os árabes". O que Lindh fez enquanto acompanhava os combatentes talebans no Afeganistão pode ser uma questão-chave nas acusações que pode enfrentar nos Estados Unidos.Na entrevista à TV, Lindh, 20 anos, defendeu o Taleban, que assumiu o poder no Afeganistão em 1995 após uma sangrenta guerra civil contra outras facções afegãs. Lindh afirmou que o Corão, o livro sagrado islâmico, permite aos muçulmanos matar outras pessoas, inclusive outros muçulmanos, numa guerra santa."Esta é uma questão prevista no próprio Corão", disse ele à CNN. "Em certos casos, muçulmanos podem, se necessário, matar e... existem situações em que um muçulmano pode ser morto (por outro muçulmano)".Referindo-se à jihad, guerra santa islâmica, ele afirmou: "É exatamente o que pensei que seria".Perguntado se a causa Taleban era a correta, Walker respondeu: "Definitivamente!"Lindh, que algumas vezes usa o sobrenome de sua mãe, Walker, foi encontrado no meio de capturados lutadores talebans no mês passado depois que forças da Aliança do Norte esmagaram um motim numa prisão no norte do Afeganistão.Ele ficou sob a custódia de forças americanas e foi levado para um navio da Marinha dos EUA no mar da Arábia, na costa do Paquistão.Lindh relatou ter combatido com as forças talebans que resistiam à Aliança do Norte na cidade nortista de Mazar-i-Sharif.Com seu rosto enegrecido pela batalha e tendo "brancos" enquanto falava, ele disse que estava tomando morfina para resistir à dor de um ferimento de bala. Ele vinha falando árabe há tanto tempo que seu inglês estava carregado de algum sotaque.Lindh afirmou que se uniu ao Taleban no Afeganistão depois de estudar no Paquistão porque seu "coração ficou preso ao movimento. Eu queria ajudá-los de uma forma ou de outra".Ele disse que depois de terem sido capturados, alguns soldados talebans esconderam granadas em suas vestes enquanto eram levados para a prisão. Ele considerou o motim "um erro de um punhado de gente" porque os soldados talebans haviam concordado em não resistir."O que aconteceu foi contrário ao que tínhamos acordado, e isso vai contra o Islã", afirmou Lindh. "É um grande pecado quebrar um contrato, especialmente numa situação militar".O espírito dos lutadores talebans foi quebrado quando forças rebeldes lançaram água na prisão, relatou. "Mais de metade dos nossos foram feridos no último dia quando eles jogaram água no porão", disse. "Ficamos no meio da água, água congelante, por umas 20 horas". Logo começaram a pensar em se render.A prisão "estava repleta de corpos mal cheirosos, e não tínhamos mais nenhuma arma. Dissemos: ´Olha, nós vamos morrer´" afirmou. "Se nos rendermos, o pior que pode acontecer é eles nos torturarem ou nos matarem. Agora, neste porão, eles estão nos torturando e nos matando, então vamos nos render".O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que o presidente George W. Bush tomará uma decisão sobre Lindh depois que o Departamento de Justiça e o Pentágono analisarem o caso."Ele está sendo tratado como alguém que lutou contra os Estados Unidos num conflito armado. E é por isso que ele está sendo classificado como um prisioneiro de batalha, e ele está sendo bem tratado", acrescentou.Leia o especial

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