Saeed Khan/AFP
Saeed Khan/AFP

Taleban anuncia gabinete interino no Afeganistão dominado pela velha guarda do grupo

Milícia mantém cargos importantes com personalidades que dominaram a batalha de 20 anos contra a coalizão liderada pelos EUA; grupo volta a reprimir manifestantes

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 12h44
Atualizado 07 de setembro de 2021 | 16h14

CABUL - O Taleban anunciou nesta terça-feira, 7, um gabinete interino dominado pela velha guarda da milícia, dando cargos importantes a personalidades que protagonizaram a batalha de 20 anos contra a coalizão liderada pelos EUA e seus aliados do governo afegão. 

O primeiro-ministro interino, Mullah Hasan Akhund, chefiou o governo do Taleban em Cabul durante os últimos anos do grupo no poder. Mullah Abdul Ghani Baradar, que liderou as negociações com os EUA e assinou o acordo que levou à retirada final dos americanos do Afeganistão, será um dos dois vices de Akhund.

Não há evidências de que nomes não ligados ao Taleban farão parte do gabinete, uma grande demanda da comunidade internacional.

Entre as outras nomeações anunciadas nesta terça-feira está a do mulá Yaqub, filho do mulá Omar, para o cargo de ministro da Defesa; e a de Sirajuddin Haqqani, líder da rede Haqqani, que vai comandar a pasta do Interior. Amir Khan Muttaqi, um dos negociadores taleban de Doha, será o novo ministro das Relações Exteriores.

O porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, ao fazer o anúncio, disse que as nomeações eram para um governo interino. Ele não entrou em detalhes sobre por quanto tempo eles serviriam e qual seria o catalisador para uma mudança. 

Até agora, o Taleban não deu indicações de que realizará eleições. O anúncio das nomeações para o gabinete por Mujahid veio horas depois de o Taleban disparar para o ar para dispersar manifestantes e prender vários jornalistas. Pela segunda vez em menos de uma semana, o grupo usou táticas violentas para interromper uma manifestação na capital afegã, Cabul.

Os manifestantes se reuniram em frente à Embaixada do Paquistão para acusar Islamabad de ajudar no ataque do Taleban à Província de Panjshir. O Taleban disse na segunda-feira que tomou a província - a última que não está sob seu controle, mas os combatentes que resistem na região negaram.

O governo anterior do Afeganistão costumava acusar o Paquistão de ajudar o Taleban, uma acusação que Islamabad negou. O ex-vice-presidente Amrullah Saleh, um dos líderes das forças anti-Taleban, há muito é um crítico ferrenho do vizinho Paquistão.

Dezenas de mulheres estavam entre os manifestantes nesta terça-feira. Algumas delas carregavam cartazes lamentando a morte de seus filhos por combatentes do Taleban que, segundo elas, foram ajudadas pelo Paquistão. Um cartaz dizia: "Eu sou uma mãe. Quando você mata meu filho, você mata uma parte de mim".

No sábado, as tropas das forças especiais do Taleban em camuflagem dispararam suas armas para o ar para encerrar uma marcha de protesto na capital por mulheres afegãs exigindo direitos iguais dos novos governantes.

O Taleban novamente agiu rápida e duramente para encerrar o protesto desta terça-feira, quando ele chegou perto do Palácio Presidencial. Eles dispararam suas armas para o ar e prenderam vários jornalistas que cobriam a manifestação. 

Em um caso, um membro da milícia que portava um fuzil Kalashnikov pegou o microfone de um jornalista e começou a espancá-lo com ele, quebrando o microfone. O jornalista foi posteriormente algemado e detido por várias horas.

"Esta é a terceira vez que sou espancado pelo Taleban cobrindo protestos", disse ele à Associated Press, sob a condição de não ser identificado porque temia retaliação. "Não irei novamente para cobrir uma manifestação, muito difícil para mim."

Um jornalista da popular TV TOLO News do Afeganistão foi detido por três horas pelo Taleban antes de ser libertado com seu equipamento e o vídeo da manifestação ainda intactos. Não houve nenhum comentário imediato do Taleban./AP e AFP 

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