Rahmat Gul/AP
Rahmat Gul/AP

Taleban autoriza retomada de programa de vacinação contra pólio no Afeganistão

Lideranças do Taleban também concordaram em permitir que mulheres trabalhem na linha de frente da iniciativa, de acordo com a Organização Mundial da Saúde e a Unicef

Azi Paybarah / The New York Times , O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 10h00

Em um esforço para erradicar a poliomielite e intensificar os cuidados de saúde das crianças no Afeganistão, o governo do Taleban concordou em reiniciar um programa de vacinação porta a porta no próximo mês e permitirá que mulheres trabalhem na linha de frente da iniciativa, anunciaram autoridades sanitárias na terça-feira, 19.

O anúncio, feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), significa um avanço no país que já foi chamado de “capital mundial da pólio”, um lugar onde profissionais de saúde enfrentam os desafios concomitantes de difícil acesso a pacientes e violência mortífera.

O programa nacional de distribuição de vacinas contra pólio, que são ministradas oralmente e em múltiplas doses, começará em 8 de novembro, de acordo com as autoridades do país. A iniciativa tem objetivo de imunizar aproximadamente 10 milhões de crianças, de acordo com o médico Hamid Jafari, diretor da OMS para erradicação da pólio na região leste do Mediterrâneo.

Mais de 3,3 milhões de crianças eram anteriormente “inacessíveis para campanhas de vacinação”, de acordo com o comunicado que anunciou a iniciativa. Crianças com idades entre 6 meses e 59 meses também receberão um suplemento de vitamina A durante a campanha, afirmaram as autoridades.

A notícia do acordo ocorre num momento em que o Taleban mostra uma flexibilidade limitada ao lidar com o mundo exterior, enquanto seu governo busca desesperadamente uma necessária ajuda em meio a uma economia em dificuldades e uma crescente escassez de alimentos.

“Saudamos o esforço da OMS de lançar sua campanha de vacinação no Afeganistão e estamos prontos para ajudar e coordená-la”, afirmou Bilal Karimi, porta-voz do Taleban. “As mulheres também poderão participar desta campanha e trabalhar proximamente com agentes de saúde para vacinar o nosso povo.”

Além do programa de vacinação contra a pólio, “todas as partes concordaram a respeito da necessidade de iniciar imediatamente campanhas de vacinação contra sarampo e covid-19”, afirmou o comunicado assinado pela ONU e OMS. Um segundo programa de vacinação contra a pólio no Afeganistão será sincronizado com uma campanha de imunização no vizinho Paquistão, prevista para começar em dezembro, afirmou o documento.

Outros seis programas de vacinação estão previstos para começar no próximo ano, de acordo com Jafari.

Ao anunciar o programa de vacinação, autoridades sanitárias afirmaram que o Taleban “expressou seu comprometimento” em permitir que mulheres trabalhem na linha de frente da iniciativa e “prover segurança e garantir que todos os trabalhadores de saúde fiquem seguros em todo o país”.

Jafari disse esperar que dezenas de milhares de mulheres participem do esforço de vacinação, como vacinadoras, supervisoras e gerentes.

O anúncio ocorre após vários ataques contra profissionais de saúde que ministraram vacinas contra pólio ocorrerem este ano, sufocando esforços para inocular crianças contra a doença. Em junho, pelo menos cinco integrantes de duas equipes de vacinação foram assassinados no mesmo dia, durante diferentes ataques em Jalalabad, no leste afegão. Na mesma cidade, três mulheres que trabalhavam na campanha do governo de vacinação contra pólio foram mortas a tiros, no fim de março.

“A Unicef está ultrajada com este ataque”, declarou a organização na época do massacre de março. “Trabalhadores de saúde de linha de frente jamais deveriam ser alvo de violência.”

Na mesma época dos ataques a tiros, uma bomba explodiu no hospital regional da cidade, próximo a instalações em que vacinas eram armazenadas, afirmaram autoridades.

Ainda que nenhum grupo tenha assumido a responsabilidade por esses ataques, o Estado Islâmico Khorasan, também conhecido como EI-K, era ativo no leste e assumiu responsabilidade por ataques parecidos contra mulheres e lideranças da sociedade civil na região.

O Taleban voltou ao poder no Afeganistão em agosto, duas décadas depois que a invasão liderada pelos americanos no país retirou o grupo do poder. O novo governo se comprometeu a garantir proteção a profissionais de saúde.

Autoridades sanitárias saudaram o apoio do Taleban ao programa. No passado, o movimento expressou ceticismo em relação a campanhas de vacinação porta a porta, afirmando acreditar que os vacinadores atuavam como espiões em certas regiões do país. Em outros lugares, o Taleban permitiu o trabalho de vacinadores em distritos sob seu controle.

“Trabalhamos com eles há décadas”, afirmou Jafari, notando que o Taleban controlou grandes partes do país no período em que esteve fora do poder. O Taleban “sempre deu apoio à vacinação contra a pólio e a erradicação da doença”, afirmou ele.

O médico Ahmed al-Mandhari, diretor da OMS para a região do Leste do Mediterrâneo, afirmou: “A urgência com que a liderança do Taleban quer que a campanha contra a pólio avance demonstra um comprometimento duplo, de manter o sistema de saúde e retomar imunizações essenciais para afastar futuros surtos de doenças evitáveis”.

Retomar o programa de vacinação, afirmou George Laryea-Adjei, diretor regional da Unicef para o Sul da Ásia, é “um passo na direção de alcançarmos nossa esperança compartilhada de erradicar a pólio na região”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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