AP Photo/Gulabuddin Amiri
AP Photo/Gulabuddin Amiri

Taleban avança e conquista Ghazni, 10ª capital provincial sob seu poder

Em uma semana, o grupo radical assumiu o controle de 10 das 34 capitais provinciais afegãs; a última é a mais próxima à capital Cabul tomada até agora

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 10h00

CABUL - O Taleban conquistou nesta quinta-feira, 12, a cidade de Ghazni, 150 km a sudoeste de Cabul, que se torna a 10ª capital provincial do Afeganistão a estar sob o poder do grupo radical, informou um conselheiro provincial.

"Posso confirmar que Ghazni caiu nas mãos dos taleban nesta manhã. Eles assumiram o controle de áreas-chave da cidade: o gabinete do governador, a sede da polícia e a prisão", disse o chefe do Conselho da Província de Ghazni, Nasir Ahmad Faqiri, à AFP. 

Ele afirmou ainda que combates ainda estão sendo travados em algumas partes da cidade, mas que o grupo tem "o controle majoritariamente". Os rebeldes também reivindicaram a tomada da localidade.

A informação foi confirmada pelo Ministério do Interior.

"O inimigo se apoderou de Ghazni [...] Há combates e resistência (de parte das forças de segurança)", disse o porta-voz do Ministério do Interior, Mirwais Stanikzai, em mensagem à imprensa.

Ghazni é a capital provincial mais próxima de Cabul de todas as conquistadas pelos insurgentes desde o lançamento de sua ofensiva em maio, início da retirada das tropas estrangeiras do país. A saída destes soldados está prevista para terminar no final de agosto.

Os taleban avançaram em um ritmo considerável nos últimos dias. Em uma semana, assumiram o controle de 10 das 34 capitais provinciais afegãs. Sete delas ficam no norte do país, uma região que conseguiu oferecer-lhes resistência no passado.

Na noite de terça-feira (10), eles tomaram Pul-e-Khumri, capital da província de Baghlan, 200 km ao norte de Cabul. Com isso, vão-se aproximando da capital tanto pelo norte quanto pelo sul.

Também cercaram Mazar-i-Sharif, a cidade mais importante do norte, onde o presidente afegão, Ashraf Ghani, reuniu-se, na quarta-feira (11), com diversas autoridades para tentar reativar o Exército e as milícias favoráveis ao poder em sua luta contra os talibãs.

Cortar eixos norte-sul 

Ghazni já esteve em poder dos insurgentes por um breve período em 2018. Agora, simboliza sua conquista mais importante até o momento, junto com Kunduz, um município estratégico no nordeste, entre Cabul e o Tajiquistão.

Embora os talibãs já estivessem há tempos presentes nas províncias de Wardak e Logar, a algumas dezenas de quilômetros de Cabul, a queda de Ghazni representa um sinal alarmante para a capital. 

Esta cidade também está localizada no eixo que liga Cabul a Kandahar, a segunda cidade do país, ao sul. Ao conquistá-la, os insurgentes podem cortar as linhas de abastecimento terrestre do Exército para o sul.

Tudo isso aumentará a pressão sobre a Força Aérea afegã, que terá de bombardear posições dos taleban e transportar material e reforços, quando não puderem chegar por terra.

Kandahar, capital da província de mesmo nome, e Lashkar Gah, capital da região de Helmand, também estão há meses sitiadas pelos radicais, que as consideram seus feudos tradicionais. Há vários dias, registram-se combates violentos entre os insurgentes e as forças de segurança. 

Na quarta-feira (11), os taleban anunciaram no Twitter que haviam tomado a prisão de Kandahar, situada na periferia da cidade, para libertar "centenas de prisioneiros", como fazem a cada vez que entram em uma cidade.

Em Lashkar Gah, o Exército lançou um contra-ataque em 4 de agosto para tentar expulsar grupos de taleban que haviam conseguido invadir a cidade. O município é alvo de bombardeios e palco de sangrentos combates. 

Crise humanitária

Os confrontos têm um custo terrível para a população civil. Em um mês, pelo menos 183 civis, incluindo crianças, foram mortos em Lashkar Gah, Kandahar, Herat (oeste) e Kunduz, e cerca de 359.000 pessoas fugiram de suas casas desde o início de 2021, de acordo com a ONU

Vários civis chegaram a Cabul nos últimos dias, onde teme-se uma grave crise humanitária. Ainda traumatizados pelas atrocidades cometidas pelos taleban diante de seus olhos, muitos afegãos tentam sobreviver em acampamentos de refugiados na capital, em meio ao mais terrível abandono. 

As tropas internacionais devem concluir sua partida do Afeganistão no final deste mês. Esse desfecho se dará duas décadas após o início de sua intervenção armada para derrubar os taleban do poder, na esteira dos ataques do 11 de setembro nos Estados Unidos. 

O governo americano garante que não voltará atrás em sua decisão, mas não escondeu, nos últimos dias, sua frustração com a fraqueza demonstrada pelo Exército afegão. Há anos, estas forças vêm sendo treinadas, financiadas e equipadas pelos EUA.

"Vemos uma deterioração da situação em matéria de segurança", admitiu o porta-voz do Pentágono, John Kirby, na quarta-feira, enfatizando, porém, que há "lugares e momentos", em que as tropas afegãs estão "lutando de verdade".

Na esfera diplomática, o enviado americano Zalmay Khalilzad se reuniu nos últimos dois dias, em Doha, no Catar, com líderes talibãs na tentativa de relançar um processo de paz com o governo afegão. Há semanas, este espaço de negociação se encontra em ponto morto. / AFP

 

Tudo o que sabemos sobre:
TalebanAfeganistão [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.