Taleban começa a julgar oito ocidentais

Oito ocidentais começaram a ser julgados nesta terça-feira em Cabul, capital do Afeganistão, onde reina há cinco anos o terrível Taleban.Os oito ocidentais (dois americanos, dois australianos e quatro alemães) cometeram o crime de ser membros de uma ONG cristã alemã (a Shelter Now International), ou seja, o crime de ajudar o infortunado povo afegão.Essas oito pessoas podem ser expulsas, o que é odioso. Mas pode ocorrer coisa pior: os funcionários afegãos dessa ONG correm o risco de ser condenados à morte. Sua falta: proselitismo cristão.O Afeganistão bate, assim, um novo recorde mundial: o Taleban já conseguiu fazer do país exangue, cujo governo assumiu após 22 anos de guerras, um dos mais pobres do mundo. Hoje, ele merece outra "medalha de ouro", ou melhor "medalha de sangue e de infâmia": o Afeganistão é o país mais feroz do mundo.E essa ferocidade, como todas as ferocidades extremas, parte, se assim se pode dizer, de um "bom sentimento". Ela encontra explicação na paixão e no fanatismo pela pureza. Nada de cínico, nem de egoísta no Taleban. Pelo contrário, generosidade, auto-sacrifício, e toneladas de ideal. Uma pureza maciça!A história nos ensinou diversas vezes esta lição sinistra: a pureza absoluta, a moral extrema e o ideal são os maiores fomentadores de cadafalsos e de pelotões de execução. Na França, Robespierre, que organizou o Terror em 1792 e guilhotinou a torto e a direito (antes de ter, por sua vez, sua cabeça decepada) era um homem admirável, conhecido pelo apelido de O Incorruptível. Não pensava na sua própria felicidade. Pensava na felicidade dos outros e da humanidade em geral.Resultado: destruía tudo o que era sujo e impuro. E um rio de sangue correu sobre Paris.Mais recentemente, podemos pensar em Pol Pot, o cambojano que dirigiu o Khmer Vermelho de Phnom Penh, mais um obcecado pela pureza, que assassinou provavelmente dois milhões de cambojanos, porque eram impuros, ou burgueses, ou egoístas, etc... Na Argélia os assassinos que aparecem à noite nas aldeias e matam todos os que vêem pela frente - homens, mulheres e bebês - são pessoas altruístas, "puras".(Senhor, livrai-nos dos "puros".)E quando essa pureza é posta a serviço de um Deus, sobretudo se esse Deus é único (Bíblia, Evangelho ou Alcorão), ela atinge uma incandescência impressionante. Na Espanha, Torquemada, que queimava as mulheres, era um homem puro. Se matava os hereges, os judeus, as feiticeiras era para ajudar esses pobres infelizes a livrar-se das garras de Satã e a ganhar o Reino dos Céus.Assim, o Taleban, esse movimento de camponeses "patchuns" (uma etnia que representa 40% da população afegã) pertence hoje à constelação dos "loucos de Deus", os mais loucos de todos os loucos de Deus. Seu olhar não vê as paisagens deste mundo, mas apenas as paisagens do "outro mundo".Pouca importa, para o Taleban, matar ou ser morto, ter fome ou estar preso. Esses detalhes são bastante vulgares. Não é neste palco visível que o Taleban encena sua tragédia. É no palco invisível do "além".Então, para ajudar as mulheres, essas infelizes criaturas visceralmente "impuras" (o ventre, os seios. Que horror...), impedem-nas de tratar-se, encerram seus rostos debaixo de grades, impedem-nas de aprender a ler.Quanto aos homens, o Taleban os condena à miséria, a uma fome infernal. E daí? Aos olhos de Deus, qual a importância disso? E não é uma boa maneira de louvar a Deus sentir fome e ser abandonado? Na verdade, louvar a Deus não é suficiente aos olhos do Taleban. É preciso ainda não se enganar de Deus. Se a ONG alemã foi atingida de forma infame (principalmente na pessoa de seus empregados afegãos), é porque essa ONG é cristã (protestante) e, portanto, ela se enganou sobre o "verdadeiro Deus".O que fazer diante dessas loucuras? O Ocidente está paralisado. No início, os americanos ajudaram o Taleban a assumir o poder em Cabul, no tempo da senhora Albright. Desde então, eles compreenderam a besteira que fizeram e estão arrependidos. Mas, hoje, o Taleban está pouco ligando para os americanos, pois beneficiam-se de outros apoios muito eficazes: o Paquistão, que é o país vizinho, e a Arábia Saudita, esse estranho país, riquíssimo, pró-Ocidente, e que está entre os mais fanáticos dos integristas islâmicos.

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