Taleban desconhece a moderação

Para mulheres afegãs, todos do grupo são radicais e só haverá segurança com melhorias sociais

Patricia Lalonde* , INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Acabo de voltar do Afeganistão e fiquei chocada ao saber da seguinte notícia: fala-se a respeito de negociações com os moderados do Taleban. O presidente americano, Barack Obama, fez este anúncio dias atrás e a mensagem foi transmitida por líderes europeus.Sejamos claros, para início de conversa: ou estamos falando sobre os membros do Taleban para os quais "moderação" significa dez chibatadas em vez de cem para as mulheres que mostrarem seus tornozelos - e quem sabe nós consigamos negociar com eles, fazendo-os reduzir as chibatadas para cinco -, ou então estamos falando sobre os rebeldes que são vítimas da miséria atual do Afeganistão e se encontram afiliados ao Taleban, ainda que mantenham certa distância dos fundamentalistas radicais. Caso estejamos nos referindo ao segundo tipo, é melhor não chamá-los de taleban.BATALHAAs mulheres afegãs que conheço não podem conceber um Taleban "moderado", para não falar em negociações com seus integrantes. O Taleban é o Taleban: muçulmanos que pregam uma ideologia fundamentalista e extremista na qual o papel da mulher é ser amordaçada e analfabeta.Muitas dessas mulheres já travaram uma batalha contra esse papel social quando o Taleban estava no poder. Elas venceram a batalha.A democracia está dando certo para elas. As meninas estão frequentando a escola. As mulheres compõem 25% do Parlamento do Afeganistão e estão fazendo um trabalho notável. Estão aprendendo a "fazer política". Uma recente votação orçamentária que envolvia fundos destinados às mulheres por meio de diversos ministérios enfrentou oposição dos deputados homens, contra a qual as mulheres se levantaram e deixaram a Câmara. As mulheres conseguiram que o orçamento fosse aprovado.O povo afegão deseja avançar rumo à modernidade, ainda que isso represente um risco de vida. Pense nas garotas de Kandahar que foram atacadas com ácido. Elas continuam a frequentar a escola, encorajadas pelo diretor da instituição. As escolas para meninas foram incendiadas... e reconstruídas. As mulheres do sul, vítimas do terror do Taleban, não esperam negociar com os extremistas religiosos. Elas sabem o que acontecerá com seus direitos se optarem por esta negociação.MAIS ESCOLASPara as mulheres de Cabul e do norte do Afeganistão, por onde viajei, a ideia de negociar com o Taleban é insuportável. Elas querem mais escolas, professores melhores, livros, canetas, papel e computadores. As universidades particulares estão se multiplicando, recebendo um número cada vez maior de estudantes ávidos por aprendizado e treinamento profissional para que possam encontrar empregos e trabalhar pelo bem de seu país.Shella Ata, uma deputada de Cabul, decidiu recentemente concorrer à presidência. Outras seguirão o seu exemplo. Ela lidera a luta pelas vítimas infantis das drogas, um fenômeno cada vez maior em Cabul e outras partes do Afeganistão, e, segundo ela, nada é feito para mudar essa situação.VIDA EM RISCOFauzia Koofi, vice-presidente do Parlamento, mora sozinha com os dois filhos. Seu marido foi morto pelo Taleban. Todos os dias, ela arrisca a vida para ir ao trabalho. Não se pode falar com ela a respeito de negociações com o Taleban.Estamos transmitindo a mensagem errada às mulheres afegãs. A afirmação de que as negociações com os moderados do Taleban trarão mais segurança ao Afeganistão é incompreensível para elas.A segurança vai voltar ao Afeganistão quando o povo afegão acreditar que pode escolher seus líderes; quando a corrupção acabar; quando a polícia afegã receber um salário decente; quando uma mudança constitucional permitir que os representantes locais sejam eleitos regionalmente, e não impostos pelo governo de Cabul; quando a população constatar melhorias em sua vida cotidiana.É assim que as mulheres afegãs enxergam a segurança. E é esta a única maneira de convencer aqueles insurgentes que não são radicais do Taleban, mas que buscaram as armas como forma de protesto contra o atual governo e as promessas vazias das forças estrangeiras, a reassumir um papel normal em seu país.Levando-se em consideração os objetivos que nos levaram à guerra no Afeganistão, negociar com os membros do Taleban seria a maior de todas as derrotas. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL*Patricia Lalonde é presidente da organização não-governamental Mobilização pelas Mulheres Eleitas no Afeganistão

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