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Taleban, EUA e Rússia 

Trump quer conversar com o Taleban, 18 anos após nova humilhação do Ocidente

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2019 | 06h00

Trump continua a demolir ou a tentar demolir o trabalho realizado pelos homens que o precederam na Casa Branca. Ele reserva uma agressividade particular a Obama e não hesita em acabar com os Acordos de Paris sobre o clima, negando o aquecimento global.

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Assim, ele está exposto a um perigo: em alguns anos, os jovens que têm hoje 20 anos ou os bebês que nascerão mais tarde provavelmente exigirão uma prestação de contas, mas Trump não se importa: ele não estará mais lá. 

Tudo ocorre como se ele tivesse adotado o mesmo programa que o rei da França, Luís XV (no século 18, pouco antes da Revolução de 1789): “Depois de mim, o dilúvio!” Apenas mude uma palavra para dizer “Depois de mim, a canícula (onda de calor intenso)!”

Pura hipótese porque, certamente, Trump não sabe quem é esse rei da França com o nome de Luís XV e, por outro lado, é provável que esse Luís XV nunca tenha pronunciado essa infâmia, foram seus inimigos que a atribuíram a ele.

Hoje, há informações sérias de que Trump pretende negociar com o Taleban a retirada dos EUA do Afeganistão. Este é um caso muito interessante: quando medimos os escombros e as valas comuns que a intervenção americana no Afeganistão provocou, após o “inesperado” 11 de setembro de 2001, temos grandes desejos de aprovar a decisão de Trump, de acabar com a bagunça causada pelo ataque americano. Pensemos nas ruínas que esta resolução trouxe. 

Dezoito anos de mortes e para qual resultado? Uma nova humilhação sofrida pelo Ocidente e especialmente pelo líder deste Ocidente, os EUA. No entanto, a história ensinou a todas as nações que se aventuraram por lá que é tolice atacar um país como o Afeganistão. Washington não quis nem saber. Resultado: milhares de soldados mortos, bilhões de dólares gastos. E um resultado ridículo. 

Washington lançou-se nessa guerra perdida antecipadamente, com a mesma cegueira que a França havia afundado no vespeiro da Indochina para ver a derrota do Exército francês diante dos sutis e heroicos guerreiros treinados por um gênio, general Giap, em Dien Bien Phu. Quantas dessas bebidas amargas o Ocidente terá de beber antes de entender que deveria pensar um pouco antes de exportar seu orgulho, suas leis, sua melancolia e suas fábricas aos antípodas. 

A França tem uma bela coleção desses desastres, entre os quais basta mencionar dois: o caso da Argélia, guerra perdida para um exército de guerreiros selvagens e o da Indochina. Os EUA podem ter excelentes armas, mas estão perdendo todos seus equipamentos regularmente.

Agora, como ceder frente aos taleban? É por isso que Trump, quando se trata de passar à concretização, a mão parece estar tremendo – um pouco...

A URSS e a Rússia são outros exemplos: nos idos da União Soviética, Moscou lançou suas legiões no Afeganistão. Foi um inferno... Os historiadores hoje acreditam que essas novas expedições coloniais foram uma das causas do colapso brutal da URSS. E, após um período de 30 anos de latência, olha só! Aqui estão eles de novo! Moscou, contra todas as probabilidades, lança os olhos para o Taleban, não para esmagá-lo, mas para lhe oferecer conselhos e trocas. Um “trabalho”, em resumo. 

Os russos conhecem bem os afegãos. No entanto, há uma “dificuldade”: os taleban, como organização terrorista, são proibidos na Rússia... Ah! Deixa para lá! / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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