Taleban ganha força nas aldeias

Insurgentes dominam a área tribal, uma zona fluida, sem nenhuma autoridade, entre o Afeganistão e o Paquistão

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2008 | 08h43

Duzentos caminhões militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) foram destruídos por 400 guerrilheiros do Taleban em Peshawar, a grande cidade no oeste do Paquistão, próxima da fronteira com o Afeganistão. Essa notícia e as imagens de veículos calcinados são angustiantes. Mas o porta-voz das forças americanas nos tranqüilizou dizendo que a "carnificina" de caminhões não é significativa no plano militar. Isso é bizarro. Um simples mapa geográfico o contradiz. Peshawar é a última etapa dos comboios que chegam do porto paquistanês de Karachi.  Três quartos do abastecimento das tropas da Otan que lutam no Afeganistão transitam por essa rota. E o principal: Peshawar fica muito próxima da famosa área tribal, uma zona fluida, sem nenhuma autoridade, entre o Afeganistão e o Paquistão. Essa área, onde terroristas pululam e fazem a lei, serve de refúgio para combatentes do Taleban.  É aí que reside, aliás, uma das principais censuras que Washington faz a seu aliado paquistanês. Está evidente que a Otan jamais conseguirá vencer a guerra contra o Taleban no Afeganistão enquanto os taleban puderem fugir para a zona tribal e se recompor depois de um combate. Já faz tempo que essa zona tribal está nas mãos do Taleban, mas desde meados deste ano ele começou a se infiltrar na grande cidade paquistanesa de Peshawar. O terror islâmico se instalou ali. Na sexta-feira, o mercado de Peshawar sofreu um atentado suicida que deixou 40 mortos pelo menos.  Seqüestros de ocidentais e paquistaneses se multiplicaram. O diretor da ajuda americana foi assassinado. Há três meses, Peshawar era uma das bases logísticas de organizações humanitárias. Hoje, nas ruas enlutadas, não se encontra um único agente humanitário. "Não vale a pena morrer por nada", dizem eles.  Os números do ataque aos 200 caminhões da Otan causam arrepios. Uma brigada de 400 combatentes do Taleban armada com fuzis e bazucas entrou no terminal de caminhões e começou tranqüilamente seu trabalho. Apesar do barulho, não apareceu um único bombeiro ou policial no local. Por quê? "Eles estavam com muito medo", disseram os habitantes.  Os americanos, não podendo contar com as forças locais, tentam restabelecer a ordem no país, expurgar as zonas tribais. Como eles agem? Enviam aviões de espionagem não-tripulados que lançam mísseis sobre as aldeias que servem de refúgio ao Taleban. Eles matam guerreiros do Taleban, mulheres, crianças. Um habitante de uma dessas aldeias disse: "Eu era a favor dos americanos, da ordem. Depois de ver os corpos despedaçados daquelas crianças, tornei-me inimigo irredutível dos americanos."

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