AP Photo/Rahmat Gul
AP Photo/Rahmat Gul

Taleban captura capital de província pela primeira vez desde a retirada de militares do Afeganistão

Rebeldes invadiram e tomaram a cidade de Zaranj, capital de Nimruz, sem resistência, de acordo com o vice-governador da província

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 11h41
Atualizado 06 de agosto de 2021 | 18h36

Desde a saída das tropas estrangeiras do Afeganistão, o Taleban tem aumentado a pressão em grandes cidades do país, atacando centros importantes e colocando as linhas de frente de combatentes dentro de áreas urbanas. Nesta sexta-feira, 6, o avanço levou ao domínio da primeira capital de uma província desde a retirada de forças da ONU e da Otan do país. 

O Taleban tomou a cidade de Zaranj, capital da província de Nimroz, num grande revés para o governo, que tenta evitar que várias cidades caiam nas mãos dos insurgentes. Segundo Roh Gul Khairzad, vice-governador da província, a cidade, que fica perto da fronteira com o Irã, caiu "sem resistência". Nas redes sociais foram publicados vídeos que mostram os insurgentes pelas ruas da cidade, em meio a aplausos dos moradores, mas a veracidade desses vídeos não pôde ser comprovada.

A queda de uma capital provincial para o Taleban marca uma escalada significativa da ofensiva militar do grupo. Anteriormente, os combates eram em grande parte restritos às áreas rurais do país. 

Nos últimos dias, as forças afegãs e do Exército americano lançaram vários ataques aéreos no país, na tentativa de conter o avanço taleban em vários centros urbanos importantes. O grupo já assumiu o controle de amplas áreas rurais e de importantes postos fronteiriços nos últimos meses, em uma ofensiva lançada após o início da retirada das forças militares estrangeiras até então estacionadas no país. A saída dessas tropas deve ser concluída até 31 de agosto.

Depois de encontrarem pouca resistência nas zonas rurais, há vários dias os taleban dirigem suas ofensivas contra grandes centros urbanos, sitiando várias capitais de província. O grupo atualmente controla mais da metade dos 421 distritos e centros distritais do país e tem como objetivo tomar todas capitais provinciais.

Alvos do alto escalão

Ainda nesta sexta, horas antes de tomar a cidade, o Taleban matou Dawa Khan Menapal, diretor de comunicação do governo que supervisionou as operações para a mídia local e estrangeira.

O homicídio de uma das principais vozes do governo acontece depois de mais um dia de intensos combates no Afeganistão, onde a guerra atinge Cabul pela primeira vez em meses. Os combatentes afirmaram que vão realizar operações contra altos cargos em resposta aos bombardeios do governo. Ontem, o ministro da Defesa afirmou que mais de 400 insurgentes foram "eliminados" nas últimas 24 horas em bombardeios das forças afegãs.

"Infelizmente, os brutais e selvagens terroristas cometeram um novo ato covarde e mataram um patriota afegão que resistia à propaganda inimiga, Dawa Khan Menapal, durante a oração de sexta-feira" na capital, declarou o porta-voz do Ministério, Mirwais Stanikzai, em mensagem enviada à imprensa pelo aplicativo WhatsApp.

O jornalista Dawa Khan Menapal era popular na pequena comunidade de imprensa de Cabul, conhecido por ridicularizar os taleban nas redes sociais. Antes do atual cargo, havia sido porta-voz adjunto do presidente afegão, Ashraf Ghani.

O Taleban também assumiu a responsabilidade por um atentado suicida na quarta-feira que teve como alvo a casa do ministro da defesa em exercício, Bismillah Khan Mohammadi, em Cabul. Oito civis foram mortos e 20 feridos, mas Mohammadi não estava presente em sua casa de hóspedes no momento do ataque.

A Casa Branca condenou os últimos ataques do Taleban, dizendo que essas ações não levarão ao reconhecimento e legitimidade internacional que o grupo busca. A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que os insurgentes "não precisam continuar neste caminho". “Vocês podem optar por dedicar ao processo de paz a mesma energia que (dedicam) à sua campanha militar. Recomendamos veementemente que o façam”, acrescentou.

Em uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a enviada da ONU para o Afeganistão, Deborah Lyons, pediu ao Taleban que acabe com os "ataques contra as cidades" e ao Conselho que lance uma advertência "inequívoca".

Com a instabilidade no Afeganistão, a Rússia reforçou sua presença militar em regiões de fronteira, temendo o aumento da violência para a Ásia Central. Moscou aumentou o fornecimento de armas e equipamentos militares ao Uzbequistão e ao Tajiquistão, além de realizar manobras conjuntas com as forças uzbeques perto da fronteira afegã. 

Os líderes de cinco ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central se reuniram no Turcomenistão nesta sexta em uma cúpula que reflete suas preocupações com o avanço dos taleban e o risco de caos no vizinho Afeganistão. Reunindo os chefes de Estado do Turcomenistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Quirguistão, esta cúpula é um raro exemplo da diplomacia na Ásia Central sem a supervisão de uma potência estrangeira, como Rússia, ou China.  

Fuga

Centenas de milhares de civis foram forçados a fugir nas últimas semanas. Nas redes sociais, inúmeros vídeos mostram os estragos dos combates na cidade de Lashkar Gah (sul do Afeganistão). Em um comunicado, o grupo humanitário Ação contra a Fome disse que seus escritórios foram atingidos por um "ataque aéreo" na cidade esta semana, apesar de seu telhado estar sinalizado como sendo de uma ONG. 

Na cidade de Herat, no oeste do país, um fluxo contínuo de moradores deixa suas casas, antecipando-se a um eventual ataque do governo às posições controladas pelos taleban.

 

"Fomos todos embora", contou Ahmad Zia, que morava na parte oeste da terceira maior cidade do Afeganistão, à agência France-Press. "Não temos mais nada e não sabemos para onde ir", completou. / Washington Post e AFP

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