Shekib Rahmani/AP
Shekib Rahmani/AP

Taleban põe grupo terrorista ligado à Al-Qaeda para dar segurança a Cabul

Informação foi confirmada pelo ex-chanceler afegão Abdullah Abdullah, que participa das negociações com os extremistas para formar um novo governo no Afeganistão

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 20h19

Khalil Haqqani, membro de uma das organizações terroristas mais poderosas do mundo e um dos nomes mais procurados pelos EUA, voltou coberto de glórias ao Afeganistão. A rede Haqqani, vinculada à Al-Qaeda, foi incumbida pelo Taleban de cuidar da segurança da capital, Cabul. A informação foi confirmada pelo ex-chanceler afegão Abdullah Abdullah, que participa das negociações com os extremistas para formar um novo governo no Afeganistão.

Nesta sexta-feira, 20, a maior mesquita de Cabul estava lotada para a oração desta sexta-feira quando um grupo de combatentes do Taleban entrou. Eram membros das forças especiais que faziam a escolta de Haqqani. Eles se vestiam como os comandos das Forças Armadas do agora deposto governo afegão, com uniformes e capacetes, óculos de visão noturna, e se portavam como profissionais. 

O grupo abriu espaço para Haqqani na primeira fila, onde ele observou a cerimônia religiosa com um fuzil M4 de fabricação americana ao seu lado. Depois que o sermão terminou, Haqqani levantou-se para se dirigir aos presentes. “Nossa primeira prioridade para o Afeganistão é a segurança”, disse. “Se não há segurança, não há vida. Daremos segurança, depois daremos economia, comércio, educação para homens e mulheres. Não haverá discriminação.” Foi ovacionado.

A cena é um lembrete de que o Taleban conta com grande apoio em muitos lugares do Afeganistão, embora seja difícil saber o tamanho desse suporte e quanto tempo ele deve durar.

Haqqani ficou exultante com a recepção calorosa. Na longa história do envolvimento dos EUA no Afeganistão, poucos grupos desempenharam um papel tão importante quanto a rede Haqqani. Fundada pelo célebre comandante mujahedin Jalaluddin Haqqani, no final dos anos 70, ela lutou contra a ocupação soviética, de 1979 a 1989, e se uniu ao Taleban, nos anos 90.

Os EUA suspeitam que a rede Haqqani tenha ajudado na fuga de Osama bin Laden de Tora Bora, em 2001. Khalil Haqqani é irmão e tio do vice-líder do Taleban, Sirajuddin Haqqani. Após a invasão americana, o clã Haqqani executou operações que complicaram a estabilização do Afeganistão. Serviços de inteligência ocidentais estimam que o grupo tenha cerca de 10 mil combatentes. 

Atualmente, Khalil Haqqani integra as listas de terroristas dos EUA e das Nações Unidas. O Departamento do Tesouro dos EUA oferece uma recompensa de US$ 5 milhões por informações que levem à sua captura. 

Após o sermão de ontem, assim que a multidão diminuiu, Haqqani pediu para falar com um fotógrafo do New York Times que trabalha em Cabul. Ele disse que os jornalistas estariam seguros agora que o país estava em paz e garantiu que as mulheres também seriam protegidas. “Temos boas intenções”, afirmou.

Segundo um oficial da inteligência britânica ouvido sob condição de anonimato, Haqqani e a Al-Qaeda têm uma longa história juntos e “é altamente improvável que eles cortem os laços”.

O ex-diplomata britânico Ivor Roberts disse à  Voz da America que designar membros da rede Haqqani para supervisionar a segurança de Cabul é como “colocar uma raposa para tomar conta de um galinheiro”. Roberts, analista do Counter Extremism Project, que pesquisa grupos extremistas, ficou surpreso com a notícia. 

“Do ponto de vista de relações públicas, achei que o Taleban seria mais esperto. Em vez disso, eles estão apresentando os piores elementos de sua coalizão e enviam um sinal terrível para mulheres, meninas e sociedade civil.”

No domingo, questionado sobre um possível ressurgimento da Al-Qaeda no Afeganistão, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que seria do “interesse do próprio” Taleban não abrigar nenhum grupo terrorista que ameace prejudicar o Ocidente. “Eles sabem o que aconteceu da última vez que deram proteção a um grupo terrorista que atacou os EUA. Não é do interesse deles permitir uma repetição disso”, disse Blinken ao programa Meet the Press da TV NBC. / REUTERS, NYT e EFE

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