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Taleban pretende nomear líder supremo como chefe do novo governo

Figura discreta e com participação mais religiosa que militar, Haibatullah Akhundzadam lidera grupo desde a morte de Mohammad Mansour, em 2016; fundador do Taleban, Abdul Ghani Baradar deve ficar a frente das questões cotidianas do governo

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 15h00

Após a conclusão da retirada das tropas americanas de Cabul, o Taleban se prepara para estabelecer seu novo governo no Afeganistão. O formato e a organização do sistema político, bem como a distribuição de cargos, permanecem incertos, mas fontes do grupo insurgente ouvidas pela imprensa internacional afirmam que Haibatullah Akhundzadam, principal líder religioso do Taleban, deve ser nomeado como a autoridade suprema do país em breve.

A posição de Haibatullah Akhundzada como líder máximo "de qualquer conselho governamental" foi confirmada pelo representante da comissão cultural do Taleban, Bilal Karimi, a Bloomberg News, nesta quarta-feira, 1º. Um membro do Taleban, ouvido em sigilo pelo The New York Times, afirmou que o anúncio pode ser feito na quinta-feira, assim como as principais nomeações para os ministérios das Comunicações e do Interior.

Os detalhes do novo governo estão sendo discutidos pela liderança do Taleban em Kandahar, berço do grupo insurgente. Mesmo que se confirme a nomeação de Akhundzadam como líder supremo, o funcionamento diário do governo deve ficar nas mãos de Abdul Ghani Baradar, atual número dois e um dos fundadores do Taleban, além de principal figura pública do grupo.

Akhundzada ascendeu ao papel de líder máximo do Taleban em 2016, após a morte de Akhtar Mohammad Mansour, em um ataque a drone no Paquistão, realizado pelos EUA. Em discursos oficiais recentes, porta-vozes do grupo se referem a ele como "za'eem" ou "rahbar", dois termos que significam líder, em um título teocrático semelhante ao do chefe de Estado iraniano, aiatolá Ali Khamenei.

Tendo exercido funções religiosas e judiciais durante o primeiro regime do Taleban, Akhundzada fugiu para o Paquistão em 2001, durante a ocupação militar americana do Afeganistão. Inicialmente, ele se dedicou a dar aulas em escolas religiosas, mas voltou ao grupo para servir ao lado de Mansour.

Figura extremamente discreta - sua última aparição pública foi há anos -, o mulá não tem muita experiência militar e seu papel prático na organização não é tão claro. No entanto, acredita-se que desde que assumiu o poder de fato do grupo, Akhundzada tem trabalhado para expandir as finanças do grupo - inclusive por meio do narcotráfico, principalmente de opioides - e unificar suas facções, concentrando poder.

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Além das funções de Akhundzada e Baradar, outros cargos importantes no governo devem ir para Mawlawi Mohammad Yaqoob e Sirajuddin Haqqani, poderosos aliados do líder supremo.

Ainda não está claro qual será o papel do conselho de líderes do Taleban, e se o grupo vai cumprir a promessa de construir um governo inclusivo. Outro ponto que segue em aberto é a participação de líderes de governos anteriores, como Hamid Karzai e Abdullah Abdullah, que permaneceram em Cabul para negociações - principalmente considerando que outros líderes Taleban devem ser nomeados para funções públicas, como Sadar Ibrahim, que vem atuando como ministro do Interior desde a vitória contra as tropas de Ashraf Ghani.

Fome, falta de recursos e reconhecimento serão desafios ao novo governo

Além da instabilidade provocada pelo processo de ruptura política no país, o Taleban terá que lidar com uma série de desafios em seu novo governo. Fome, falta de recursos e o corte de financiamento externo - pelo menos até o reconhecimento da autoridade do grupo como representação oficial afegã - dificultam o processo que em condições normais já seria complexo.

O novo governo do Taleban assume um país empobrecido - cenário agravado pela segunda seca em quatro anos - e órfão de seu principal mantenedor: o assistencialismo vindo da missão americana. Na crise humanitária afegã, mais de 18 milhões de pessoas, o que é mais do que a metade da população do país, precisa de ajuda para se alimentar, segundo dados das Nações Unidas, enquanto um terço do país enfrenta o que a ONU classifica como níveis críticos de insegurança alimentar. Metade deste total é de crianças com menos de 5 anos.

De acordo com o coordenador humanitário das Nações Unidas para o Afeganistão, Ramiz Alakbarov, as condições irão provavelmente piorar muito em breve, com as reservas alimentares provavelmente esgotando-se no final de setembro.

Parte do caos que o país pode passar foi experienciado no vácuo criado pela queda do governo de Ashraf Ghani, enquanto as tropas americanas aceleravam sua fuga do Afeganistão. Serviços públicos ficaram indisponíveis, com funcionários parando de trabalhar por medo e por não saber se continuam a ter suas funções. Bancos foram fechados e dinheiro se tornou matéria escassa, o que fez subir o preço de alimentos.

É quase certo que, para superar a crise humanitária e econômica em que o país se encontra, o novo governo precisará de ajuda externa. O que se viu até o momento, porém, foi desconfiança e bloqueios, que para serem contornados precisarão de uma grande habilidade política por parte do Taleban.

Derrotado na guerra, os EUA conseguiram que o Fundo Monetário Internacional suspendesse o pagamento de cerca de US$ 370 milhões (o equivalente a R$ 2,01 bilhões) destinados ao Afeganistão, em 23 de agosto. O fundo citou a "falta de clareza dentro da comunidade internacional" sobre o reconhecimento de um governo no país.

No mês passado, a União Europeia também suspendeu a ajuda ao desenvolvimento "até o esclarecimento da situação" com os líderes do Taleban, disse o chefe de política externa do bloco, Josep Borrell.

Outros atores internacionais, como Rússia e China, aparecem como possíveis válvulas de escape para aliviar a pressão de um possível bloqueio ocidental ao governo Taleban - principalmente os chineses, que tem interesses econômicos na área de mineração e infraestrutura no país. Todavia, mesmo essa cooperação euroasiática depende do Taleban conseguir se provar um fator de estabilidade na região, coisa que interessa tanto a ocidentais quanto a orientais.

Enquanto o ocidente, principalmente os Estados Unidos, desejam uma resposta forte do Taleban ao Estado Islâmico Khorasan (ISIS-K), que promoveu um dos ataques mais letais contra tropas americanas na reta final da operação de retirada, a China espera que o grupo insurgente adote uma postura firme contra qualquer iniciativa de auxiliar extremistas islâmicos em Xinjiang, província chinesa que faz fronteira com o Afeganistão e tem uma das dissidências internas que mais preocupam Pequim.

Analistas apontam que o Afeganistão pode se tornar um reduto seguro para as operações de grupos terroristas. Mas é improvável que o governo Taleban consiga qualquer tipo de apoio internacional sem oferecer uma resposta considerada satisfatória sobre o tema.

Quem são os nomes que devem compor o governo afegão

Haibatullah Akhundzada

Haibatullah Akhundzada é o líder supremo do Taleban. Ele assumiu o poder em 2016, depois que o ex-líder do grupo, Akhtar Mohammad Mansour, foi morto em um ataque de drones dos EUA no Paquistão.

Clérigo que já foi o principal juiz do Taleban, Akhundzada fugiu em 2001 para o Paquistão, onde ensinou em escolas religiosas antes de voltar a servir sob o comando de Mansour.

Ele não tem muita experiência militar e, desde que se tornou o líder de fato do Taleban, tem trabalhado para fortalecer as finanças do grupo, em parte por meio do comércio de drogas, ao mesmo tempo que tenta unificar as facções do grupo e consolidar o poder. Já se passaram anos desde que Akhundzada apareceu em público pela última vez.

Abdul Ghani Baradar

Principal líder político e um dos fundadores originais do Taleban, Baradar passou mais da metade de sua vida adulta como insurgente ou prisioneiro, e ninguém sabe ao certo quantos anos ele tem. 

Em 2001, quando os EUA invadiram o Afeganistão e começaram a bombardear a Al-Qaeda e o Taleban, foi Baradar quem negociou a rendição do grupo com Hamid Karzai, que logo seria empossado como presidente do país. 

Em 2010, foi preso no Paquistão, sendo libertado em 2018, a pedido do governo dos EUA, para representar o grupo insurgente na mesa de negociação de paz em Doha, no Catar. Ele foi o primeiro líder do grupo a se comunicar diretamente com um presidente americano, quando conversou com Donald Trump, em 2020, após a assinatura do acordo que levou à retirada das tropas neste ano.

Apenas em agosto ele voltou a pisar em solo afegão, após mais de uma década, desembarcando em Kandahar, berço do Taleban, em meio a fanfarras e fogos de artifício. Ele se dirigiu ao Afeganistão depois que o presidente Ashraf Ghani fugiu do país.

"Alcançamos uma vitória que não era esperada. Devemos mostrar humildade na frente de Alá", disse, em um comunicado registrado em Doha.

Mohammad Yaqoob

Mohammad Yaqoob é o filho mais velho do fundador do Taleban, Mohammad Omar, e chefia as forças armadas da organização. Rosto relativamente novo no grupo que rapidamente ganhou destaque após a morte de seu pai, em 2013, Yaqoob é considerado por alguns especialistas como um membro moderado do grupo extremista.

Enquanto o Taleban estava obtendo ganhos territoriais rápidos durante a campanha que derrubou o governo, ele pediu aos combatentes que não prejudicassem homens do Exército e do governo afegão, evitassem saquear casas vazias e garantissem que os mercados e lojas continuassem funcionando, de acordo com a Associated Press.

Sirajuddin Haqqani

Menos moderado pode ser Sirajuddin Haqqani, filho de Jalaluddin Haqqani, que fundou a rede Haqqani, um desdobramento do Taleban designado um grupo terrorista pelos Estados Unidos.

A coalizão liderada pelos EUA no Afeganistão tornou a erradicação da rede, conhecida por seus bombardeios mortais, uma prioridade durante sua missão. Mas em 2017, o grupo fez um retorno assustador, reunindo 5 mil combatentes no sudeste do Afeganistão, todos comandados por Sirajuddin Haqqani.

Haqqani lidera a rede e atua como vice-líder do Taleban.

Ele é procurado para interrogatório pelo FBI por conexão com um ataque em 2008 a um hotel em Cabul, que matou seis pessoas, incluindo um americano. O combatente ganhou as manchetes no ano passado, quando o The New York Times publicou uma coluna dele intitulada "O que nós, o Taleban, queremos". O jornal foi criticado por não informar adequadamente os leitores sobre a história de Haqqani como líder de uma rede terrorista./ NYT, W. POST, AFP e REUTES

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