Haider Shah/ REUTERS
Haider Shah/ REUTERS

Taleban promete paz, ordem e anistia no Afeganistão - o mesmo que prometeu da primeira vez

Discurso moderado do grupo fundamentalista se assemelha ao que foi dito por seus líderes em 1996, após a tomada de Cabul - que posteriormente não se confirmou

Sammy Westfall, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 15h00

Em uma entrevista coletiva em Cabul na semana passada, o porta-voz do Taleban, Zabiullah Mujahid, argumentou que o grupo de hoje não é mais o mesmo do qual o mundo se lembra da última vez que assumiu o poder nacional.

"Ninguém será prejudicado no Afeganistão", disse ele. "Claro, há uma grande diferença entre nós agora e 20 anos atrás."

Os observadores rapidamente perceberam os sinais de compromisso e divergência da postura linha-dura que marcou as atitudes do gupo em relação ao papel das mulheres e meninas: jornalistas voltaram à tela um dia após a queda de Cabul, até entrevistando um representante Taleban na televisão ao vivo. O porta-voz do gabinete político do grupo tuitou um vídeo de um acadêmico alinhado ao novo governo aconselhando funcionárias do hospital a continuarem seu trabalho.

Esses momentos teriam sido difíceis de imaginar durante o governo anterior do Taleban sobre o país, que durou de 1996 até a invasão de 2001 pelas forças lideradas pelos Estados Unidos.

Mas esta não foi a primeira vez que o Taleban tentou apresentar um rosto tranquilizador. Algumas das garantias oficiais que acompanharam a ascensão do grupo em 1996 deram um tom semelhante.

Em 27 de setembro de 1996, as forças do Taleban tomaram Cabul durante a noite, invadindo a cidade de todas as direções após uma varredura de 15 dias no país. (Em agosto de 2021, levaria 10 dias.) O grupo insurgente encontrou pouca resistência das tropas do governo. "A aparente facilidade da vitória militar do Taleban confundiu muitos observadores aqui", escreveu Kenneth J. Cooper do The Washington Post em 6 de outubro de 1996.

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Naquela época, o Taleban era "pouco conhecido" nos Estados Unidos, de acordo com uma manchete do The Washington Post de 28 de setembro de 1996. Geopoliticamente, a nação havia "caído fora" do radar de Washington.

"Faremos o possível para que todas as regras e regulamentos do Islã sejam implementados no local", anunciou Mohammad Abbas Stanikzai, vice-ministro das Relações Exteriores do Taleban, em 1996. "Mas, na medida em que formos capazes, queremos estabelecer um governo islâmico que não se opõe ao mundo moderno." Hoje, Stanikzai atua como chefe do escritório político do Taleban.

O Taleban pregou o Estado de Direito e o retorno da ordem - até promessas de paz estrondosas em alto-falantes barulhentos. Os afegãos estavam fartos de anos de lutas internas entre facções e derramamento de sangue na guerra civil do país em meio ao colapso do governo comunista instalado pela União Soviética. Por meio de mensagens, a liderança do Taleban se posicionou "não apenas como defensores do Islã, mas como salvadores do Afeganistão", escreveu Cooper em 6 de outubro de 1996.

Cerca de 250.000 residentes de Cabul - principalmente os instruídos e ricos - fugiram para os territórios do norte do país e para o Paquistão na semana da conquista. Mas o líder do Taleban, Mohammad Omar, exortou os temerosos residentes de Cabul a ficar, sugerindo que eles estavam mais seguros com milicianos patrulhando as ruas.

Imediatamente, um comandante do Taleban chamado Musa declarou anistia a todos os oficiais do governo e soldados que se renderam: "O Taleban não se vingará. Não temos rancor pessoal. Se as pessoas encontrarem alguém responsável por crimes no passado, iremos julgá-lo de acordo com a lei islâmica."

Mais de duas décadas depois, em 17 de agosto de 2021, o Taleban anunciaria novamente uma "anistia" geral para "compatriotas" que haviam servido anteriormente como intérpretes ou em setores militares e civis. "Não queremos nos vingar de ninguém", disse Mujahid. “Ninguém vai bater na porta para inspecioná-los."

No dia seguinte, uma avaliação de ameaça confidencial para as Nações Unidas afirmou que o Taleban estava intensificando sua caçada a opositores - indo de casa em casa, estabelecendo postos de controle e ameaçando parentes de oficiais de segurança afegãos, bem como colaboradores dos EUA e da Otan.

Duas décadas atrás, apesar das mensagens sugerindo o contrário, a vingança inicial estava em plena exibição, muito mais do que hoje.

Nas horas depois que o grupo assumiu o poder em 1996, o corpo inchado e espancado do ex-presidente Najibullah pendia, ao lado do cadáver cicatrizado de seu irmão, de um laço pendurado em uma plataforma de controle de tráfego de 6 metros, Kathy Gannon relatou para o The Washington Post.

Desta vez, o presidente, Ashraf Ghani, fugiu. "Se eu tivesse ficado lá, um presidente eleito do Afeganistão teria sido enforcado novamente diante dos próprios olhos dos afegãos", disse Ghani mais tarde em um vídeo no Facebook.

Em 1996, em poucos dias, o Taleban rompeu com suas garantias. Os líderes do Taleban prometeram cortar as mãos e os pés dos ladrões - e eles o fizeram. Duas mulheres vestindo roupas que cobriam tudo, exceto os olhos, estavam andando por uma movimentada rua comercial quando milicianos do Taleban pularam de um veículo utilitário e espancaram as mulheres com uma antena de rádio de carro, noticiou o Post em 3 de outubro de 1996. "Por quê? Por que, meu irmão?" uma das mulheres, carregando um bebê, gritou.

No dia seguinte, milicianos pegaram dois homens roubando doces. Como punição, eles "enegreceram os rostos dos culpados com fumaça, enfiaram moeda afegã em suas orelhas e narizes e os desfilaram pela cidade na caçamba de uma caminhonete", escreveu Cooper.

"Para as mulheres de Cabul, foi uma semana de medo e quase prisão", escreveu Cooper em 7 de outubro. O Taleban havia fechado todas as escolas femininas. Esquadrões da "polícia da moralidade" do ministério de Promoção da Virtude e Eliminação do Vício executaram punições draconianas para impor códigos de modéstia em barbas muito finas ou tornozelos que apareciam.

"Não há problema para qualquer afegão que viva livremente em nossas áreas", disse Cooper citando o então vice-ministro das Relações Exteriores do Taleban, Stanikzai.

Mais tarde, o governo fundamentalista islâmico proibiu fitas cassete e música ao vivo - e aplausos após gols de futebol, como William Shawcross escreveu para o The Washington Post em novembro de 1997.

"As mulheres, diz o Taleban, 'devem andar sempre com suavidade'", escreveu Shawcross.

Os líderes do Taleban disseram em uma entrevista coletiva de 1º de outubro de 1996 que as restrições a mulheres e meninas permaneceriam apenas até que fossem criadas regras que permitissem seu emprego e educação de maneira consistente com o Islã. Um porta-voz disse que isso poderia "levar algum tempo", relatou Cooper em 3 de outubro daquele ano.

Isso realmente levou algum tempo. Escolas para meninas foram abertas novamente somente depois que as forças lideradas pelos EUA invadiram e o Taleban caiu, em 2001.

Um mês após a vitória de 1996, o rigoroso fundamentalismo islâmico do Taleban havia se tornado amplamente impopular. "O Taleban não é visto como no início. Eles eram bem-vindos", disse Mohammed Ghaus, então ministro das Relações Exteriores em exercício, em 19 de outubro de 1996. "[Agora] eles perderam o apoio total do povo. O povo do Afeganistão percebe que o Taleban não pode administrar o país".

"Desde o início de sua campanha armada para tomar o controle do Afeganistão, o Taleban tem prometido que, depois de ter o país antes caótico e sem lei sob seu domínio, aliviaria suas severas restrições", escreveu Pamela Constable, do Post, em setembro de 1998. "Em vez disso ... a repressão se intensificou."

Por enquanto, o futuro da vida sob o Taleban continua difícil de prever. Mas muitos se apegam à esperança de que um estilo de vida mais liberal possa persistir, pelo menos em alguns aspectos.

Na entrevista coletiva na terça-feira, o porta-voz do Taleban, Mujahid, procurou garantir aos residentes de Cabul "total segurança, para proteção de sua dignidade e segurança".

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"O Emirado Islâmico não quer que as mulheres sejam vítimas", disse Enamullah Samangani, membro da comissão cultural do Taleban. Ele disse que o grupo está pronto para "proporcionar às mulheres um ambiente para trabalhar e estudar, e a presença das mulheres em diferentes estruturas (governamentais)", relatou a Associated Press.

O representante da Unicef no Afeganistão, Hervé Ludovic De Lys, em uma declaração de 18 de agosto apontou um "sinal encorajador": Abriram escolas para crianças, incluindo meninas, em Herat e Marouf.

Mas alguns ainda não aceitam a palavra do Taleban.

"Eu realmente posso enlouquecer quando encontro essas pessoas que estão tentando se convencer de que o Taleban mudou e que mantêm suas promessas e se alinham com suas declarações políticas", disse Hosna Jalil, que tinha 9 anos quando o Taleban caiu em 2001.

Jalil se lembra de anos de brutalidade, espancamentos, humilhações e viver com medo enquanto ia a uma mesquita. Anos depois, ela se tornou a primeira mulher elevada a um cargo sênior do Ministério do Interior no Afeganistão.

"Para mim, como afegã, se vivi sob o regime, se passei minha infância sob o regime deles, lutei, lutei com eles nos últimos 20 anos por uma grande causa", disse ela. "Lutei pelo futuro de nossas meninas e meninos. Estou lhe dizendo, eles não mudaram."

Omar Sadr, um cientista político da Universidade Americana do Afeganistão, disse ao The Washington Post que "observando [o Taleban] de 1996 até agora, eles são um movimento hipócrita - hipócrita no sentido de que suas declarações não correspondem aos seus feitos e ações".

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